
Amanhã, emigrantes brasileiros residentes em Berlim, Alemanha, irão manifestar, mais uma vez, em frente do imponente prédio da Embaixada Brasileira (herança da época FHC, cujo estranho aluguel saiu mais caro que uma compra) contra a ação policial paulista, no bairro Pinheirinho, em São José dos Campos.
Os emigrantes ja fizeram uma manifestação, na semana passada, logo depois da invasão de Pinheirinho, com cartazes denunciando a violência e a truculência policial, destinada aplicar uma decisão judicial que colocou na rua mais quase sete mil pessoas e favorecer, em nome da lei, especuladores imobiliários.
Na falta de uma posição oficial do órgão representativo dos emigrantes brasileiros, o chamado CRBE, Conselho de Representantes dos Brasileiros no Exterior, foi o secretário da entidade, José Paulo Ribeiro, que, em seu nome pessoal, José Paulo Ribeiro, divulgou um comunicado de solidariedade aos expulsos de Pinheirinho, lembrando que emigrantes brasileiros e excluídos da sociedade brasileira vivem as mesmas dificuldades e sofrem as mesmas violências.
Segue o comunicado -
Solidariedade aos excluídos de Pinheirinho
Acho que os excluídos da sociedade brasileira e os emigrantes têm coisas em comum. Uns lutam para ter emprego, moradia e alimentação, um lugar, mas não encontram. Os outros preferiram partir para sobreviver .
A imprensa internacional publicou e se tornou uma mancha para nosso país o ocorrido no terreno ocupado de Pinheirinho, em São José dos Campos, cujos habitantes foram desalojados à força – inclusive crianças, idosos e doentes –sem sequer terem tempo de salvar seus poucos móveis, roupas e utensílios domésticos.
Atirados na rua de maneira violenta, lembram cenas do ataque de Soweto, na antiga África do Sul do apartheid.
Quase 7 mil pessoas tratadas como gado e lixo, para desocuparem um terreno destinado, provavelmente, a beneficiar especuladores imobiliários. Nada se fez previamente para lhes garantir uma transferência para outras habitações, dentro da dignidade e do respeito aos direitos humanos.
Como secretário do Conselho de Representantes das Comunidades Brasileiras no Exterior não posso ficar calado e me junto aos emigrantes que, como ocorreu em Berlim, foram protestar contra essa indignidade diante da embaixada brasileira. Não podemos aceitar uma sociedade de apartheid social, como essa aplicada pelo governo de São Paulo.
Peço, como estipula nosso regimento e decreto de criação, que este protesto seja encaminhado ao ministro Antonio Patriota, a fim de que o governo seja informado da indignação dos brasileiros do exterior. E que esses milhares de desalojados sejam acolhidos e protegidos pelo governo federal, em respeito aos princípios de direitos humanos assumidos pelo Brasil diante de órgãos internacionais como a ONU, OEA e diante da própria população brasileira.
E que cada emigrante envie uma carta,cartão à embaixada ou consulado de sua região, assinalando seu protesto, ou organize uma manifestação com as associações locais de emigrantes, nos consulados e embaixadas de suas cidades. José Paulo Ribeiro, secretário do CRBE.
Rui Martins, correspondente em Genebra.

Encontro de emigrantes em Nova Iorque, em março coincide com um motim contra o presidente do CRBE, conselho de emigrantes criado e dirigido pelo Itamaraty.
Haverá um novo encontro-debate entre emigrantes brasileiros para a discussão de três temas – solução ou dissolução do CRBE (Conselho de Representates de Brasileiros no Exterior), a imprensa dos emigrantes junto à comunidade brasileira e a criação da Secretaria de Estado dos Emigrantes.
Os debatedores viajarão para Nova Iorque com seus próprios meios e o encontro terá lugar na Casa do Brasil, na 43 st. Número 4, com o patrocínio do Brazilian Times Newspapers, do conhecido Edilson Paiva. São debatedores, a titular do Conselho de Representantes das Comunidades no Exterior, Ester Sanches Naek; o presidente da chamada ABII, Zigomar Vuelma, e este colunista.
Embora acertado bem antes, o encontro-debate se tornou bastante oportuno porque coincide com um motim dentro do CRBE, comandado por alguns titulares e suplentes contra seu presidente.
Na verdade, essa nova crise tem feições de um remake de crise, quando, ignorando as regras democráticas, os titulares, « enrolados na farinha », como se disse, quiseram expulsar um suplente pelo delito de ter opinião diferente.
Na época, o presidente do Conselho agiu como o romano Brutus e votou pela expulsão do seu cabo eleitoral, o suplente articulador de sua eleição. Como dizia minha mãe, hoje uma sábia senhora de 91 anos, « o castigo vem a cavalo ». E veio. Agora querem expulsar o presidente.
Tenho lido os emails trocados e só posso mesmo lamentar.
Por uma razão simples, trata-se de uma luta fratricida e sem futuro, baseada num mal-entendido. O de que o CRBE constitui o concretizar das aspirações dos emigrantes.
Não, o CRBE, como o próprio nome indica, é apenas um Conselho, só isso. E, dada a diversidade de opiniões ocorrem brigas, disputas, xingamentos, está sob a tutela dos diplomatas, que há muito tempo aprenderam, no Instituto Rio Branco, como evitar esses atritos e cozinhar contendas no banho-maria ou na água morna, até amolecerem e se acalmarem.
Faz parte da própria razão de ser do CRBE não chegar a lugar nenhum. Por que ? Porque no documento de sua criação está bem claro e, poderia ser em letras maiúsculas para os míopes, que se trata de um órgão consultivo e de assessoria ou de interlocução como preferem alguns.
Ou seja, não de se trata de um órgão para decidir, mas para ser consultado, dar palpites e bater papo ou ficar na conversa mole. Tanto que agora virou bandeira dos amotinados colocar o CRBE no Skype. Cada membro tem três ou cinco minutos para dar seu recado. Se todos falassem seriam 16 vezes 3 igual a 48 minutos ou vezes 5 igual a 80, uma hora e meia, mais a introdução e os anúncios.
Como se acertou ser sem vídeo, cada um poderá ficar fazendo outra coisa até chegar sua hora de dar o recado.
Decidimos ficar do lado de fora desse motim, porque nem os amotinados e nem o chefe do conselho têm razão. Quando ajudamos a eleger o presidente, seu compromisso era o de nos ajudar, por sua vez, a chegarmos a um órgão institucional emigrante sem a tutela do Itamaraty, a uma Secretaria de Estado dos Emigrantes. O CRBE seria uma simples e curta etapa. Na sua meditação zen esqueceu o compromisso e quase ajudou a nos expulsar.
E os amotinados ?
Seu líder fala em resgatar o CRBE em querer fazer funcionar o CRBE, vítima, ao que diz, da preguiça ou da falta de interesse do presidente.
E aí está o erro. Sendo apenas um etapa, não há nenhuma necessidade de se resgatar esse conselho. O importante, isso sim, é o de se proclamar a independência, sair da tutela do Itamaraty, encurtar a fase CRBE, para se chegar logo à Secretaria de Estado dos Emigrantes. Os amotinados estão perdendo um precioso tempo que poderia ser dedicado à reivindicação da Comissão de Transição para se criar a Secretaria de Estado.
Exceto se a luta é apenas para se trocar de lugar. E nisso não entramos não.
Vejam bem, por melhor que seja, com revista, skype, suplente agindo como titular, titulares simplesmente ausentes, o Conselho vai ser sempre conselho tutelado, consultivo e de assessoria.
Para se fazer alguma coisa válida para os emigrantes, e não ser só coisa para vitrina, para inglês ver, é preciso haver um órgão sem tutela, próximo do governo, com independência e em nível de igualdade com ministérios e secretarias de Estado.
Devem existir também parlamentares emigrantes para agir no Parlamento, em Brasília. Eleitos, terão independência para propor leis em favor dos emigrantes.
E, em terceiro lugar, deve haver um grande Conselho de Emigrantes, reunindo todos os segmentos representativos da emigração, desde grupos religiosos, filantrópicos, associações de prestações de serviços, despachantes, advogados, doleiros, todos, enfim, para trabalhar em conjunto com a Secretaria de Estado e com os parlamentares emigrantes.
E como deve ser um Conselho ainda maior, provavelmente haverá ainda mais brigas, porém com um objetivo válido. Mas nesse novo conselho haverá ideologia, porque com o tempo as pessoas eleitas não serão a título pessoal mas em nome de uma política e de um conceito ou ideologia. O que atualmente não existe no CRBE.
Não apoiamos e nem atiçamos os amotinados, apenas lembramos que não é esse o caminho, que estão perdendo tempo e fazendo os emigrantes perderem tempo. Nossa luta deve ser a nossa independencia.
(Publicado originalmente no Direto da Redação)

Berna (Suiça) - Philipp Hildebrand foi mais uma vítima do charme feminino.
Só lhe restava mesmo apanhar seus papéis sobre a mesa, colocar na pasta de ex-presidente do Banco Nacional Suíço e, sem tremer, sem deixar de sorrir, deixar sua sala, tomar o elevador, sair na rua e se tornar um cidadão comum, rico é claro, mas sem a auréola do poder.
Quando, algumas horas atrás, entrara na sala de imprensa, repleta, flashes espoucando e câmeras gravando, chamou a atenção seu porte de atleta. Sem dúvida o mais elegante dos banqueiros, alto, magro, esportista, nenhum grama excedendo no peso, quando seus colegas sedentários têm geralmente um excesso de gordura proporcional à riqueza obtida nas especulações e investimentos com ventre parecendo esconder uma sacola de dinheiro.
O que estaria pensando Hildebrand, já de costas para a glória, enquanto ressoavam seus passos de homem decidido, competente e prepotente ?
Provavelmente na insistência de sua esposa Kashya (na foto com o marido) em comprar 500 mil dólares, aproveitando a queda da moeda americana naquele mês de agosto, do ano passado. De nada adiantou ele argumentar não poder especular, em razão do seu cargo de direção do banco central suíço. Kashya sabia que dois dias depois, Hildebrand iria desencadear uma ação, no mercado de divisas, para diminuir a força do franco suíço face ao euro, isso em defesa das exportações suíças, e o dólar seria melhor cotado.
Em outubro, a ação do Banco Nacional Suíço, embora tivesse custado alguns bilhões de francos, deu resultado – o franco suíço foi estabilizado na cotação de 1,20 Euro e se evitou a supervalorização e a equiparação do franco com o euro. As empresas suíças exportadoras respiraram aliviadas, as exportações recomeçaram.
Kashya Hildebrand, nascida no Paquistão, filha de pai paquistanês e mãe americana, com estudos feitos em Boston e uma carreira de trader em Nova Iorque, onde conheceu Philipp, viu que a política monetária do marido no BNS tinha dado resultado e reforçado o dólar.
Era a hora de trocar seus 500 mil dólares em francos suíços, o que lhe valeu um lucro de 60 mil francos. Casada com um financista jovem, rico e em plena ascenção, ela não precisava desse dinheiro. Mas o que fazer quando a especulação se tornou parte de sua existência ?
Tudo teria se passado sem problema, não fosse o olhar indiscreto de um informático do Banco Sarasin, onde o casal tinha sua fortuna. Desconfiando se tratar de um caso típico de « delito de iniciado » ou jogar na bolsa tendo informações seguras, fotografou a tela do computador, onde havia a operação, e levou a um advogado, amigo do chefe do partido de extrema-direita, Christoph Blocher, inimigo jurado de Hildebrand.
A informação de delito de iniciado, pela esposa do presidente do Banco Nacional Suíço, foi levada ao governo e acabou caindo na imprensa. Três semanas de incertezas, desmentidos, tentativas de diminuir a importância do delito, até ocorrer o pedido de demissão pelo próprio Philipp Hildebrand.
O caso lembra outro, em situações totalmente diversas, mas envolvendo igualmente um importante dirigente das finanças. Dominique Strauss-Khan, em plena glória e candidato imbatível à presidência da França, tudo perdeu por ter sucumbido ao desejo sexual por uma camareira africana.
Tentando se justificar, nos angustiosos dias precedendo sua demissão, Philipp Hildebrand deixara escapar uma frase, logo apropriada pela imprensa - « minha esposa é uma mulher de caráter forte ». Imagina-se o banqueiro, jovem ambicioso, autoritário entre seus colegas e com seus subordinados, aceitando correr o risco de tudo perder, diante da exigência de sua esposa pequena, magra e voluntariosa.
Justamente, ele, Hildebrand, que chegara a contatar alguns colegas banqueiros para sondar a possibilidade de ocupar o lugar deixado vago por DSK, profissionalmente nocauteado por uma camareira de caráter forte ou interessada em transformar em dólares uma violação ou uma relação sexual consentida.

Caros colegas do CRBE,
hoje é o primeiro dia do ano que, pelas profecias dos maias pode terminar mais cedo. Ainda sob a emoção de um fim-do-mundo, mostrado no filme Melancolia, do dinamarquês Lars von Treier, decidi retomar minha campanha, já, agora, dada a premência do tempo.
Recebi por vias indiretas o projeto de Estatuto do Conselho de Cidadania de Zurique e gostaria de fazer um comentário a respeito do artigo Terceiro, que se não foi reformulado, diz -
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Artigo 3º Composição
(1) O Conselho é composto por um Presidente e 8 (oito) representantes titulares e 8 (oito) suplentes eleitos de formadireta para as seguintes áreas: cultura, educação, empresarial,informação/divulgação, integração, jurídico, religião, saúde. Todos os membrosdevem ser cidadãos brasileiros.
(2) O Conselho é presidido pelo Cônsul Geral Adjunto e assistido pordiplomata do setor consular, que substituirá o Presidente em caso de ausência
(3) A rotatividade da composição do Conselho deverá obedecer, em princípio,periodicidade bienal, com possibilidade de recondução.
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Discordo do parágrafo 2. Se os representantes foram eleitos em pleito aberto e reconhecidamente sem fraudes, como ocorreu, imagina-se serem pessoas maiores, em pleno exercício de suas faculdades e direitos. Conheço algumas dessas pessoas e sei que são capazes de bem representar os emigrantes daquela região.
Não se justifica, portanto, que o Conselho de Cidadania seja presidido pelo Consul Geral Adjunto assistido por diplomata do setor consular.
Não há razão para haver tutela dos emigrantes, já a partir dos consulados. Se esse Estatuto espelha o de outras regiões, lamento, mas trilhamos caminho errado.
O Conselho de Cidadão ou de Cidadania deve ser independente e dirigido pelos próprios emigrantes e poderá ter a participação de uma autoridade consular em suas reuniões, mas na qualidade de observadora.
Esse formato não corresponde ao anseio geral dos emigrantes de uma verdadeira política de emigração. O presidente do Conselho tem de ser um dos emigrantes eleitos e as decisões tomadas pelo Conselho serão levadas ao Consulado. No caso de implicarem em medidas a serem tomadas pelo Consulado, O presidente e o secretario do Conselho discutirão com as autoridades consulares as reivindidações dos emigrantes por eles representados, mas em condições de igualdade e não sob tutela. ((Manter uma tutela sobre o Conselho de Cidadãos retira dos emigrantes toda possibilidade de uma verdadeira representatividade junto ao Consulado)). Ou seja, ocorre ao nível da base a mesma situação de tutela do CRBE pelo Itamaraty, que não aceitamos e que esperamos seja logo corrigida, em favor de um órgão institucional emigrante sem tutela mas em condições igualdade com os outros ministérios e secretarias de Estado.
Acresce que esse Conselho tutelado também não dispõe de verbas. Ora, não se pode criar um conselho de emigrantes sem disponibilizar verbas para isso. A consequência é o Conselho ficar sem condições de agir ou de ficar na dependência de associações ou órgãos externos capazes de subvencionar as despesas decorrentes, desde flyers a encontros e viagens.
A situação é tão absurda que, estando Zurique, local das reuniões, distante da residência de alguns dos conselheiros eleitos, são estes conselheiros que terão de arcar com as despesas de viagem para participar das reuniões. Imagino que o mesmo se aplica ao Conselho eleito em Genebra. Evidentemente, a existência de um Conselho voluntário e grátis a serviço dos Consulados é muito prático e econômico para o Itamaraty, mas impedirá que alguns emigrantes possam arcar com esse ônus e desestimulará emigrantes de poucos recursos a participarem do Conselho de Cidadania.
A situação, com ligeiras variações, é a mesma dos conselheiros titulares do CRBE, que se quiserem visitar os países de sua região, terão de usar de seu próprio bolso. O que resulta - só os conselheiros com patrocinadores externos ou com apoio de associações e grupos externos podem arcar com as despesas dessas viagens.
Em nome dos movimentos Estado do Emigrante e Brasileirinhos Apátridas, que me elegeram suplente neste CRBE e que represento, encaminho esta divergência aos colegas titulares, ao presidente e secretário do CRBE e ao Itamaraty, por considerar situação irregular e insustentável.
Rui Martins, suplente pela Europa no CRBE.
Berna, 1 de janeiro de 2012.

Berna (Suiça) - Ela se chama Aliaa Magda Elmahdy, é egípcia e decidiu enfrentar os islamitas que, pelo jeito, se apropriaram da « primavera árabe ».
Ameaçada de morte, essa jovem de 20 anos, ainda com cara de adolescente, tirou toda roupa e nua desfechou seu ataque contra os fanáticos muçulmanos, capazes de acabarem com todos os direitos das mulheres conquistados, no século passado, pela mulheres egípcias e mergulharem o Egito numa Idade Média corânica.« ((Eu reivindico minha liberdade sexual, o direito de não me casar, meu ateismo)). As mulheres devem poder viver sua vida como bem entendem », é o desafio lançado por Aliaa.
Se fosse na França medieval, ela seria queimada na fogueira como filha do diabo ou feiticieira, pelos religiosos católicos da Inquisição. Mas a Idade Média cristã-ocidental acabou com a modernização do cristinianismo decorrente dos movimentos da Reforma, de Lutero a Zwinglio e Calvino, e seus estertores foram provocados pela Renascença e pelo Iluminismo, com o laicismo sacralizado pela Revolução Francesa.
Entretanto, no mundo religioso árabe, sem uma central religiosa ditadora dos dogmas, como o Vaticano, ainda é difícil se esperar uma modernização e uma leitura liberal do Corão, para se chegar à moderação e a uma separação do poder divino e poder temporal como aconteceu na Europa. Além disso, a divisão entre sunitas e xiitas (minoritários), é relativizada pela ascenção dos integristas que pregam o retorno à chariá, a aplicação literal da lei do Corão, uma lei que poderia ter seu lugar naqueles anos do VII século, mas hoje é uma lei cruel e desumana.
Por que a importância do desafio de Aliaa Magda Elmahdy ? Porque a tendência hoje, nos países transformados pela « primavera árabe » é a do poder político ser tomado pelos Irmãos Muçulmanos, movimento integrista combatido na tentativa panarábica do líder laico, anticolonialista e não religioso Gamal Abel Nasser. Para Nasser, a tentativa frustrada de unificação árabe visava criar uma frente contra os países colonialistas, Inglaterra e França principalmente, para desenvolver os países árabes.
Os integristas de hoje estão conseguindo a unificação árabe pela religião e, embora os inimigos sejam praticamente os mesmos, os ocidentais, mas as consequências serão desastrosas. O integrismo islamita se alimenta da pobreza, já que os donos do petróleo não souberam distribuir a riqueza nem instaurar regimes com participação popular.
A instauração da chariá é o retorno literal aos preceitos do Corão com punições físicas, tortura e morte, em nome de uma rigorosa moralização dos costumes. E as principais vítimas são as mulheres, que retornam a ser meros objetos, obrigadas a cobrir todo o corpo a fim de não tentarem os homens. Justamente quando estavam conquistando alguns dos direitos mais que comuns entre as mulheres ocidentais.
Evidentemente, existe a exceção turca, país muçulmano que optou pela laicidade, na queda do Império Otomano. O risco é o dos islamitas, usando de força e inquisição, acabarem com sociedades muçulmanas liberais como a existente na Tunísia. Quanto ao Egito, parece já ter o destino selado, devendo ser proibido mesmo às turistas se bronzearem nas praias.
Em termos futuros, basta se imaginar a presença de governos teocráticos islamitas em frente à Europa, do outro lado do Mediterrâneo. Sem se contar a atual presença islamita dentro da Europa. E o mais absurdo é que foi o próprio Ocidente o autor desse quadro – a destruição do Iraque de Sadam Hussein e da Líbia de Kadafi foram o equivalente a retirar as barreiras que continham os xiitas do Irã e os Irmãos Muçulmanos do Egito. Abriu-se a Caixa de Pandora.

Caro senador, valho-me dos contatos, poucos é verdade mas importantes, que tivemos no começo da campanha dos Brasileirinhos Apátridas, pela recuperação da nacionalidade nata para os filhos dos emigrantes, e na campanha pela aprovação da sua PEC 05/05, que aprovávamos já em 2005, quando muitos dos atuais defensores sequer se preocupavam com a possibilidade de haver parlamentares emigrantes.
Como o senador sabe, de 2008 para cá, com a criação das Conferências Brasileiros no Mundo, o governo ativou a participação social dos emigrantes e criou mesmo um conselho, o CRBE, que temos criticado com insistência por padecer de um defeito básico, o de ser tutelado pelos diplomatas do Itamaraty.
Mas não é esta a razão deste recado. O motivo se prende à sua Proposta de Emenda Constitucional 05 de 2005, pela qual se criariam novas circunscrições eleitorais no Exterior com o objetivo de dar aos emigrantes a possibilidade de votar nas eleições legislativas e de serem votados, para se ter no Congresso quatro deputados emigrantes.
O caro senador terá mesmo um encontro com o presidente do Conselho de Emigrantes, o CRBE, que irá buscar seu apoio para se reativar o debate e se prosseguir com a votação no Senado dessa PEC, já aprovada uma vez. Como se sabe, uma proposta de emenda constitucional necessita ser aprovada duas vezes, por maioria de dois terços no Senado, e igualmente na Câmara Federal.
O meu recado, senador, é para alertá-lo não ser este o momento adequado. A primeira aprovação da PEC 05/05 provocou euforia nos meios emigrantes, mas teve a reprovação da imprensa que mobilizou a opinião pública. Resultado – muitos senadores prometeram ser contra na segunda votação, jogando assim no lixo essa sua importante iniciativa. Não é, portanto, o momento oportuno, porque para a população do Brasil continental, que desconhece os problemas dos emigrantes, só é visto o fato de se criarem mais deputados.
Porém, não é só a imprensa e nem a opinião pública manipulada pela imprensa os contrários a se levar adiante, agora, essa PEC. Como dirigente do movimento de cidadania Estado do Emigrante considero haver prioridade para a criação, isso sim, de uma Secretaria de Estado dos Emigrantes, antes de se tratar de parlamentares emigrantes e de se lançar prematuramente os inexperientes emigrantes numa precipitada eleição de deputados, na qual se repetiriam os mesmos erros e abusos ocorridos nas eleições para o Conselho CRBE.
Senhor senador Cristovam Buarque – ter deputados parlamentares sem haver junto ao governo um órgão de decisão, a Secretaria de Estado dos Emigrantes, não será de nenhuma valia para os emigrantes. Mas permitirá a alguns se aproveitarem e utilizarem o movimento emigrante em proveito próprio.
Não devemos começar a construir a casa dos emigrantes pelo teto, como já fez o Itamaraty com o CRBE, destituído de independência e autonomia. Primeiro, deve haver uma Secretaria de Estado dos Emigrantes que irá preparar as bases para o atendimento das reivindicações e das necessidades básicas dos emigrantes, sejam trabalhadores, comerciantes ou pequenos e médios empresários.
Só, a seguir, com a criação das circunscrições eleitorais, instalação dos partidos políticos no Exterior, permitindo aos emigranes exercer sua liberdade de escolha é que deveremos pensar em parlamentares emigrantes. Isso para que sejam verdadeiros representantes da população emigrante e não aproveitadores da boa fé dos emigrantes. Tudo ainda está muito verde. Sem os emigrantes saírem da tutela dos diplomatas, dos consulados e do Itamaraty nada será possível em termos de representação democrática.
Senhor senador Cristovam Buarque, ajude-nos a obter nossa independência e nossa autonomia dentro do governo, para que os representantes dos emigrantes possam se sentar na mesa do governo em condições de igualdade com os outros ministérios e secretarias de Estado. Ajude-nos nisso, e, a seguir, juntos e no momento adequado, iremos lutar pelos parlamentares emigrantes, coisa que defendemos como necessária desde o lançamento do nosso movimento.
Não se deixe iludir pelos que só têm um objetivo em vista – ganhar uma eleição para deputado federal. A luta pelos nossos emigrantes não é em favor de conquistas pessoais, e o prioritário neste momento é a obtenção de um órgão institucional emigrante independente do Itamaraty.

O CRBE sem verbas para funcionar, sem uma agenda própria, sem um lugar próprio para reuniões e sem autonomia para tomar decisões, já que está sob a tutela do Itamaraty, não corresponde às expectativas dos emigrantes em matéria de política da emigração.
Os encontros realizados por iniciativa do jornal Brazilian Times e comunidades locais em Boston, Nova Iorque e Newark, com palestras de três suplentes do CRBE,confirmaram o clima de insatisfação. O ponto forte dos encontros é a união em torno da demanda ao governo federal de uma Secretaria de Estado dos Emigrantes, contra a tutela dos emigrantes pelo Itamaraty como vem ocorrendo desde a criação do CRBE.
Embora ausente por estar no Brasil agindo em favor dos emigrantes brasileiros nos EUA, a titular do CRBE, Ester Sanches Naek, autorizou fosse comunicado seu apoio ao projeto do órgão institucional emigrante independente do Itamaraty, a Secretaria de Estado dos Emigrantes. No Brasil, ela está mantendo encontros com políticos e autoridades, prevendo novas iniciativas em novembro com esse mesmo objetivo. Outros titulares e suplentes, embora não querendo ainda aparecer, comunicaram seu apoio ao projeto e se manifestarão em momento oportuno.
O núcleo de Boston do PT anunciou que, no próximo dia 6 de novembro, organizará um encontro da comunidade para divulgar o projeto do órgão institucional emigrante, defendido durante os encontros de Boston, NY e Newark pelo suplente do CRBE e militante petista Jorge Costa, com o apoio da militante Cláudia Tamski, de Boston.
Pode-se considerar tais encontros como o sinal de partida para o movimento em favor da criação pelo governo de uma Secretaria de Estado dos Emigrantes, interativa com todos os ministérios mas em condições de igualdade e não sob a tutela do Itamaraty.
Pelo projeto, o atual CRBE passa a ser a terceira base do tripé que prevê uma Secretaria de Estado, parlamentares emigrantes e um amplo Conselho de Emigrantes. Transformado no Conselho de Emigrantes, deverá reunir uma centena de representantes, neles havendo lugar para todos os segmentos da população emigrante desde empresários, despachantes e grupos religiosos.
Esse Conselho de Emigrantes não admitirá uma multiplicidade de representantes de emigrantes num certo país em detrimento de outras regiões sem representantes. Todas as comunidades de certa importância em tamanho da população emigrante serão representadas por pessoa eleita de maneira correta e sem fraude, utilizando-se o título eleitoral.
Esse Conselho de Emigrantes apresentará suas reivindicações colhidas juntos às bases e consultas aos Conselhos de Cidadania, dirigidos também por emigrantes, à Secretaria de Estado dos Emigrantes, cujo titular e equipe deverão ser também emigrantes.
Paralelamente, o governo deverá se empenhar junto à sua bancada para obter uma rápida aprovação de uma Emenda constitucional criando circunscrições eleitorais no Exterior com competência para organizar eleições legislativas brasileiras com candidatos emigrantes. Esses parlamentares participarão com a Secretaria de Estado da normalização ou criação da estrutura legal (normas, regulamentos, portarias e leis) relacionadas com os emigrantes e participarão com os Ministérios (Educação, Trabalhos, Relações Exteriores, etc. ) da elaboração das políticas envolvendo os emigrantes no Exterior.
Em linhas gerais, para o entendimento de todos os emigrantes, a criação de uma Secretaria de Estado dos Emigrantes implicará no seguinte -
1. a Secretaria de Estado dos Emigrantes deverá funcionar como qualquer outra Secretaria (como Secretarias da Mulher, da Igualdade Racial, dos Direitos Humanos) - um titular, nomeado ela Presidenta, uma equipe e um lugar para funcionar em Brasília. Todos os integrantes da Secretaria deverão ser emigrantes, e receberão os mesmos salários pagos aos integrantes das outras secretarias por trabalho a tempo integral
2. a Secretaria de Estado dos Emigrantes funcionará como um centro decisório relacionado com os emigrantes, todas as atuais questões da Ata Consolidada serão pauta para a Secretaria resolver em contatos com o governo e com os ministérios. No atual sistema, quem resolve ou não resolve é o Itamaraty, tudo passará a ser decidido pelos próprios emigrantes, com condiçoes de viajarem para resolverem questões in loco, como no Paraguai e Japão, e tomar as decisões que o governo deverá ratificar. Para dar o exemplo, nessa Secretaria seu titular e equipe só viajarão em classe economica e, sempre que possível, pernoitarão em casa de emigrantes, convivendo e tendo refeições com eles para sentir realmente seus problemas.
3. A escolha do titular da Secretaria competirá ao governo e a presidenta Dilma, ao aceitar essa proposta de orgão institucional terá duas opções - a de escolher gente que vem lutando por isso ou de escolher algum indicado por algum partido, desde que seja emigrante. O titular , a seguir, indicará os nomes dos que farão parte de sua restrita equipe de 5 a 10 pessoas, emigrantes, militantes. A verba utilizada será a mesma atualmente utilizada pela Subsecretaria das Comunidades Brasileiras do Exterior, lotada por diplomatas do Itamaraty, que cederá seu lugar à Secretaria dos Emigrantes.
4. A partir da criação dessa Secretaria, competirá à Presidente Dilma Rousseff a escolha do titular, como ocorre com outros ministérios e secretarias, tendo em vista a aplicação do seu programa de governo. Ao mesmo tempo, se esperará que o governo negocie no Parlamento uma rápida tramitação e aprovação da emenda constitucional criando parlamentares emigrantes. Uma comissão parlamentar poderá ser constituída para estudar as bases para uma eficiente representação dos emigrantes no Parlamento.
O jornal Brazilian Times se propõe a facilitar para todos os emigrantes o conhecimento dos debates em Boston, Nova Iorque e Newark colocando vídeos dos três encontros na Internet. Ao mesmo tempo, a televisão Veja-RedeTV já disponibilizou a íntegra do último encontro em Newark, que pode ser consultada por este link Clique aqui e um balanço dos encontros está em Clique aqui
O sinal de partida foi dado, agora é uma questão de mobilização. Nada se conquista sem luta, debates e mobilização.

Berna (Suiça) - A notícia chegou lacônica – pelo Facebook, colocada pelo conselheiro titular Ronney Oliveria – “informo que a IV CBM será adiada para o primeiro semestre de 2012 em data a ser acordada com o CRBE”.
Para quem não entende de siglas, a IV CBM quer dizer IV Conferência Brasileiros no Mundo, que não se realizará mais do dia 3 ao dia 8 de outubro deste ano, como estava previsto. Azar de quem marcou férias ou mesmo comprou passagens para ir a Brasília acompanhar esse encontro.
A nota tem dois erros – o uso do verbo no futuro é indevido, leia-se “a conferência foi adiada”; e a informação de que será marcada uma data combinada com o CRBE, pois, assim como o adiamento foi inesperado e comunicado de cima para baixo sem possibilidade de recusa dos titulares do CRBE, assim será a nova data... se houver.
O que revela essa lacônica informação do titular da região dos EUA, guardada em segredo pelos demais, e que só assim se tornou público, nesse opaco, fechado e falido conselho de emigrantes ? Não se precisa ser leitor de borras de café, basta a experiência da leitura entrelinhas da ditadura, quando as notícias no Estadão ou na Veja deviam ser lidas nas entrelinhas.
O pomposo Conselho de Representantes dos Brasileiros no Exterior, CRBE, perdeu a credibilidade junto ao governo federal que, num primeiro gesto, cortou as verbas destinadas à atual frustrante política brasileira de emigração. Por culpa de quem ? De um lado do próprio governo, porque essa política como vem sendo aplicada não convence e apresentou numerosas falhas – nas eleições mal feitas houve fraude, em lugar da verba ser utilizada pelos emigrantes criou-se no Itamaraty um novo departamento, no qual foram lotados cerca de uma dezena de diplomatas, entre embaixador, futuro ministro-conselheiro, secretários, contando para promoções com a vantagem de não se precisar sair do Brasil.
Do outro, pelos próprios conselheiros que, tirando-se um e outro, não representam os emigrantes mas grupos comerciais e grupos religiosos, titulares envaidecidos, inebriados pela possibilidade de terem um cartão de visita com o brasão da República. Um grupo de pessoas sem formação política, apenas movidas por interesse pessoal e, por isso, incapaz de agir com discernimento diante dos problemas enfrentados pelos emigrantes, preferindo se submeter aos diplomatas do Itamaraty que, embora possam ser bem intencionados, não conseguiram criar um conselho transparente e vivo, mas um conselho burocratizado, emperrado, elitista e secreto.
Essa inexperiência acabou sendo utilizada por espertos candidatos a futuros políticos, formados porém no ranço conservador, na falta de respeito democrático e no próprio autoritarismo. Por ter feito, aqui críticas, muito mais amenas que as de hoje, fui afastado para não dizer expulso, excluído da lista de informação (as poucas existentes), sujeito a me retratar e fazer contrição caso quisesse ser reintegrado. E, como se não bastasse, mostrando o nível dos titulares, ((sobrou para mim a acusação de ser o “verme da Suíça”, coincidentemente o mesmo termo utilizado pela extrema-direita européia para designar imigrantes)).
É claro que tudo isso circulou, entre políticos e dentro do governo e essa péssima imagem dos conselheiros, entre Brutus e inquisidores, descredibilizou e está provocando o abandono do CRBE. Do jeito como está, é evidente, julga o governo um desperdício de dinheiro pagar passagens e hotéis para não se chegar a nenhum resultado, fora o risco de contendas.
Mas os emigrantes não devem se desesperar com isso. Sempre dissemos que as conferências Brasileiros no Mundo são um show, não tão bem preparado como o Focus Brazil, destinado a mostrar cenas para inglês ver. Está mesmo na hora de se baixar as cortinas.
O que os emigrantes precisam é de um órgão institucional emigrante independente do Itamaraty, mas interativo com todos os Ministérios – uma Secretaria de Estado dos Emigrantes. Mas irá funcionar com que dinheiro ? Com a mesma verba que o governo federal destinou à Subsecretaria das Comunidades Brasileiras no Exterior, utilizada atualmente para cargos de diplomatas.
Quanto custa essa Subsecretaria ao governo, contando-se diplomatas e funcionários, viagens, diárias e tudo nela aplicado ?
Se a presidenta Dilma nos ler, ela que tem reajustado algumas coisas nos ministérios com problemas, nossa proposta é justa, simples mas eficaz.
Com a dotação destinada atualmente à essa Subsecretaria, pode-se criar a Secretaria de Estado dos Emigrantes, com um emigrante na chefia e um pequeno quadro decisório, em Brasília. Esse será o ponto de partida para uma verdadeira política de emigração. Já que não vai haver IV Conferência, deve-se criar já uma Comissão de Transição para as mudanças e transferências necessárias.
Não é de hoje que falamos no nosso projeto mas não custa repetir – a política de emigração brasileira deve ser dirigida pelos próprios emigrantes, não tem sentido ficar sob a direção e tutela de diplomatas. Essa política deve incluir parlamentares emigrantes e um conselho de emigrantes, diferente do atual e bem mais amplo.
É hora de mudar e de repensar tudo. A experiência com o CRBE é conclusiva, não funciona!
Anexos
No final do mes de abril, fui contatado pela revista Época para dar uma entrevista sobre o CRBE. O texto publicado não correspondia às minhas críticas, mas fui considerado como o principal responsável. Apesar de ter perdido meus arquivos numa pane provocada no meu endereço hotmail, considerei localizar uma cópia do texto de minha entrevista enviada ao repórter da revista Época, que desmente totalmente as acusações que me foram feitas.
Esse texto segue abaixo. Abraços Rui Martins, suplente pela Europa, em processo administrativo pedido por seus colegas do CRBE, em curso no Itamaraty.
TEXTO ENVIADO EM FINS DE ABRIL PARA O JORNALISTA ELISEU DA ÉPOCA -
Caro Eliseu, segundo seu pedido, aí vão minhas observações-
O CRBE só tem valor se considerado como o primeiro passo do governo na elaboração de uma política brasileira de emigração. Nesse caso, vale como aprendizado pelos emigrantes do funcionamento do processo politico do acompanhamento de reivindicações até serem institucionalizadas como leis, regulamentos ou normais federais; aprendizado do procedimento parlamentar nas discussões, ordem do dia, naã organização de conferências e reuniões, bem como na elaboração de protocolos ou atas.
Mas esse aprendizado deve conduzir, num prazo máximo de cinco anos, à criação de uma Secretaria de Estado dos Emigrantes (no modelo das Secretarias da Mulher, da Igualdade Racial, dos Direitos Humanos), aprovação pelo Congresso de parlamentares (deputados e/ou senadores) emigrantes eleitos pelos emigrantes e criação de um verdadeiro Conselho de Emigrantes, representativo de todos os segmentos e regiões, ligado diretamente à Secretaria de Estado dos Emigrantes.
A tutela dos emigrantes pelo MRE, Itamaraty e seus diplomatas deve ser, portanto, uma simples e curta etapa.
A criação da Secretaria de Estado dos Emigrantes suspenderá imediatamente a Subsecretaria Geral das Comunidades Brasileiras no Exterior e suas dotações orçamentárias serão transferidas à Secretaria de Estado dos Emigrantes.
O atual quadro de diplomatas lotado na SGCB retorna ao MRE, pois a Secretaria de Estado dos Emigrantes (ou o super Ministério das Migrações, envolvendo migração, imigração e emigração) terá um quadro próprio, entre nomeados e concursados, todos emigrantes.
Sobre a Ata Consolidada
O MRE acaba de divulgar um encontro com outros ministérios e entidades, no qual foram discutidas questões relacionadas com a população emigrante. Ora,os emigrantes não deram delegação e nem procuração para os diplomatas cuidarem disso.
As questões dos emigrantes devem ser debatidas com os ministérios e entidades governamentais pelos próprios emigrantes, pela Secretaria de Estado dos Emigrantes, junto com os parlamentares emigrantes.
Para quem for ao site Brasileiros no Mundo, do MRE, e encontrar a Ata Consolidada,elaborada durante e após a III Conferência dos emigrantes, vai constatar que se trata de uma coletânea de boas intenções endereçadas aos bons favores do Itamaraty para que possa realizá-las. Isso porque o CRBE, responsável por essa Ata, não tem poder para tomar as iniciativas e nem pode fazer os contatos necessários à sua implementação.
O CRBE funcionando em separado, sem estar vinculado a uma Secretaria de Estado dos Emigrantes e sem contar com o apoio de parlamentares emigrantes, com mera função de assessoria e consultoria, submetido à tutela do Itamaraty, é um órgão anacrônico, baseado na política do paternalismo, coisa totalmente ultrapassada.
O MRE ganhou uma dotação orçamentária, lotou com jovens diplomatas todo um departamento, na SGCB, a pretexto de desenvolver uma política junto aos emigrantes, mas precisa ceder esse território ocupado indevidamente. Diplomata não é emigrante, mesmo se vive por vezes no Exterior.
Nosso projeto não é contra o Itamaraty, é por uma separação de atribuições porque diplomata e emigrante englobam questões e problemas diferentes. A Secretaria de Estado dos Emigrantes vai agir muitas vezes junto com o MRE, assim como com outros ministérios, mas de maneira independentee não tutelada. Os emigrantes têm quadros formados em Harvard, Sorbonne, Oxford e universidades de prestígio, são maiores, sabem o que querem não precisam das muletas do Itamaraty.
Reunião do CRBE em maio
O Itamaraty, através da SGBE, decidiu reunir os titulares do CRBE do dia 2 ao 6 de maio, em Brasília, para discutir a Ata Consolidada (a coletânea de boas intenções) e manter alguns contatos com órgãos do governo.
Apesar dos protestos de alguns e das sugestões de outros, os suplentes não participarão desse encontro.
Classificados como funcionários DAS-4, sem o serem e sem receberem qualquer pagamento, os conselheiros titulares viajarão, da Europa e da Ásia, em classe executiva, que custa três vezes mais que a classe econômica.
Um conselheiro emigrante no Japão tinha proposto que todos viajassem em classe ecônomica para que, com essa economia, pudessem também participar do encontro os suplentes. Mas o Itamaraty diz que não há base legal para isso.
Problema de funcionamento
Um grave problema de funcionamento decorre do fato dos membros do CRBE viverem em regiões distantes. Os contatos, foi provado nestes meses, são difíceis, e isso parece provar ser necessário uma base para funcionar. Ou seja, a Secretaria de Estado dos Emigrantes, em Brasília, num lugar fixo poderá funcionar sem problemas e seus membros, no caso de necessidade farão itinerância junto ao verdadeiro Conselho de Emigrantes, proposto mais em cima.
Falta de pagamentofavorece os emigrantes Vips
Nem todos os emigrantes podem participar desse benevolado do CRBE, econômico para o Itamaraty. Eu mesmo, como jornalista free lance, sou obrigado a não propor reportagens e não assumir compromissos para poder dar conta de minhas responsabilidades mesmo de suplente (já fui conselheiro titular no ano passado).
Essa situação favorece os emigrantes que dirigem associações religiosas, filantrópicas ou comerciais (são a maioria dos CRBE), pois as viagens e o envolvimento no CRBE fazem parte de suas atividades normais e lhes dão mesmo notoriedade.
Portanto, criar um órgão emigrante na base do benevolato, quando os diplomatas que participam dos encontros estão sendo pagos e mesmo compensando dias de trabalho no Rio com dias de férias, é inegalitário e favorece só uma certaclasse de emigrantes.
Nossa representante em Nagoya, que foi conselheira do Conselho Provisório, operária metalúrgica, teve despesas para encontrar os diretores da SGBE que nunca foram pagas. Mas os diplomatas da SGBE que foram a Tóquio tinham hotel e diárias pagas !
Sem dotação para funcionar
Como destaquei em Genebra (está no youtube), o CRBE não tem uma dotação orçamentária para funcionar (talvez tenha para pagar os diplomatas lotados nesse setor), ou seja, as viagens e conferências têm sempre de esperar uma aprovação orçamentária, o que demonstra a improvisação e aprecariedade desse Conselho.
Comissão de Transição
Sem a transição para uma Secretaria de Estado dos Emigrantes o CRBE é vitrina, coisa para inglês ver ou cena de teatro para dar a impressão de que se está fazendo alguma coisa pelos emigrantes.
Esperamos que a presidenta Dilma possa ser informada dessa situação e criar rapidamente a Secretaria de Estado dos Emigrantes, o que assinalará o começo de uma real Política Brasileira de Emigraçao, por enquanto, há muito blablabla e muitas boas intenções e um grande equívoco, pois os diplomatas não são emigrantes e não há nenhuma afinidade entre emigrantes e diplomatas.
A questão principal e primordial é isso, sair da tutela do Itamaraty. Questões como cartões de visita, passaporte diplomático, viagens em classe econômica ou executiva são secundárias e não devem desviar os emigrantes da questão principal – sua autodeterminação e sua independência.

Locarno (Suiça), 5 de agosto de 2011, by Rui Martins
(Diretodaredacao.com)- A Suíça é o único país da Europa que, para deportar imigrantes de avião, usa o método do entrave, ou seja, eles ficam com os pés e as mãos algemados e uma corrente impede que possam ficar de pé. Durante o vôo, que pode durar mais de dez horas, o imigrante expulso não pode ir ao banheiro e é obrigado a ir fazendo nas calças suas necessidades. Três imigrantes já morreram durante esses vôos e tinham sido presos sem qualquer delito cometido.
O método suíço é bárbaro, indigno e vergonhoso e foi regulamentado durante a presença, na junta de sete ministros que governa o país, do ministro do Partido do Povo, Christoph Blocher, líder da extrema-direita, chamada de populista mas com comportamento de partido neo-nazista.
Esse Partido, com quase 30% de votos nas eleições legislatives, é o maior da Suíça. Costuma promover campanhas contra imigrantes, propor votações populares com o objetivo de transformar os estrangeiros em bodes expiatórios de todos os males suíços, política semelhante à usada por Hitler contra os judeus.
Uma nova lei do ministério da Justiça no departamento de emigração, inclui a obrigação dos diretores de escolas denunciarem as crianças de imigrantes sem papéis. Essa proposta adicional ao arsenal de medidas deixada pelo ex-ministro do Partido do Povo, se deve à nova ministra que é do Partido Socialista. Lei semelhante não existe nos outros países europeus, mas tinha sido criada, em 1935, na Alemanha nazista, e consistia na obrigação dos professores denunciarem os alunos judeus, ciganos ou filhos de comunistas.
Essas revelações foram feitas no decurso do encontro com a imprensa do cineasta Fernand Melgar, depois da exibição do seu filme Vôo Especial, concorrendo ao Leopardo de Ouro. Melgar já fez outro filme, há poucos anos, Forteresse , sobre os campos de refugiados, onde ficam presos os estrangeiros enquanto aguardam os julgamentos de seus pedidos de refúgio.
O novo filme de Fernand Melgar foi autorizado a documentar o lugar onde ficam presos os “sem papéis”, alguns deles já tendo família na Suíça onde vivem há mais de dez anos e mesmo vinte anos, como um kosovar em fase de expulsão, que saiu do Kosovo na época da guerra e não tem mais nenhuma ligação com seu país de origem, tendo se integrado à Suíça.
Fernand Melgar fará um terceiro filme sobre os imigrantes, mostrando como vivem no país de origem os imigrantes expulsos.
Na prisão de filmagem, localizada no lado suíço-francês, conta Melgar, o tratamento por parte dos responsáveis é correto, mas do lado suíço-alemão os imigrantes chegam a ficar em células isoladas, sem terem cometido qualquer crime ou delito, razão pela qual ocorrem suicídios.
Fernand Melgar deixa claro haver uma responsabilidade coletiva do povo suíço nessas medidas desumanas e discricionárias, pois foi o povo suíço quem votou e autorizou essas ações contra os imigrantes.
A USINA DE SONHOS E OS EXTRATERRESTRES
Um filme Super-8 de adolescentes se transforma na trama do filme principal com os ingredientes típicos americanos – extraterrestres, complôs, efeitos especiais, um blockbuster inteligente, divertido, num clima de tensão controlada.
Logo no início do cinema, Hollywood era um exemplo da alienação cultural para os soviéticos, para os quais a meca do cinema nascente era uma usina de sonhos. Longe estavam de imaginar na sua crítica ortodoxa e fundamentalista, que Hollywood se tornaria sinônimo de entretenimento mundial e que o cinema também poderia ser instrumento social.
Mas a usina de sonhos tinha seus problemas para os fabricantes de sonhos e fantasias, pois Charles Chaplin, ainda no cinema mudo preto e branco, começou a propor filmes de fundo social, tragicomédias com o pano de fundo da crise de 1929 e o próprio Carlitos era um símbolo. O desvio do entretenimento para a crítica social, comum na cinematografia européia, foi definitivamente interrompido durante o macartismo e o cinema hollywoodiano assim como as séries de televisão, mesmo atuais, privilegiam só o psicológico em lugar do social.
Ou, a simples fantasia, que leva às personagens dotadas de poderes sobrenaturais, como Superhomem, ou aos excitantes filmes sobre os extraterrestes, que durante a guerra-fria poderiam estar vivendo entre nós e talvez seriam os soviéticos. Sem se esquecer serem os americanos entusiasmados e ingênuos aficionados das teorias de complôs.
Super-8, o filme de abertura do Festival Internacional de Cinema de Locarno tem fantasia, complô, extraterrestres num clima de filmes antigos de detetives estrelados por jovens desobedientes dentros dos limites e inteligentes.
Com essa receita, de um filme Super-8, rodado com poucos recursos para concorrer num festival regional de curtas-metragens, dentro de um filme de 35mm ou digital, o diretor J.J.Abrams, ele próprio um super-dotado roteirista, diretor e produtor do filme, garante o lazer, num domingo chuvoso, ou para começo de uma soirée num cinema de tela grande.
Um grupo de adolescentes, num lugarejo de Ohio, está rodando uma história de mortos-vivos, numa estação ferroviária, quando ocorre um acidente, provocado por um professor cientista, contra um trem transportando equipamentos secretos do exército, em luta contra um extraterrestre, cuja espaçonave caíra no nosso planeta.
Militares autoritários, como costumam ser, contra um cientista, evacuam a cidade sem contar a razão, prendem o prefeito local mas são os adolescentes que permitem desvendar o complô. Exceto um deles que, nos momentos mais difíceis, nada viu por estar fumando maconha.
AMOR, PAIXÃO E ESPIONAGEM EM BEIRUTE
As cenas são de paixão tórrida e recente num hotel, mas as personagens não são tão simples para se construir uma história de amor – ela é libanesa, cantora de buate em fase de divórcio de um marido inconformado com a separação; ele é francês, advogado encarregado de acertar uns contratos com a Síria, mas suspeito de espião israelense.
No pano de fundo, a Beirute rica, onde as tensões políticas, atentados, ameaças e execuçõe subsistem mesmo depois de terminados os sequestros. Famílias potentes, grupos, serviços secretos, suspeitas, ameaças são cotidiano, no dizer da própria cineasta Danielle Arbid, já premiada em Locarno e vivendo na França.
Nesse clima de insegurança, de medo constante e de risco de morte inesperada, o desejo e a paixão carnal se acentuam e o orgasmo entre dois seres tão antagônicos provocam faíscas e aquecem como fios elétricos de polos diversos até explodirem como bomba.
"Faz vinte anos que vivo na França mas quando vou a Beirute, não posso negar", conta Danielle Arbid, "vivo uma espécie de paranóia e tenho medo, com o qual muitos se acostumam ou aceitam de maneira fatalista, a ponto de trocar constantemente de hotel".
"Tenho medo",confessa ela, "da guerra entre nós libaneses e da guerra com os outros, como Israel, medo de tudo que nos leve aos caos e medo da violência, porque há muita violência num clima de falsa quietude. Um dia, durante as filmagens metade da cidade estava controlada, dadas as brigas entre xiitas e sunitas".
No filme, Danielle imprime essa sensação de paranóia, transportada para um casal em começo de história de amor, na qual um não conhece a outro, se indagam e se suspeitam.
"Na Europa", explica a diretora do filme, "sente-se menos esse clima, felizmente, depois de tantos anos sem guerras. A guerra é mais econômica, luta-se para se achar um emprego e assegurar o futuro. No Líbano não existe esse sentimento de segurança, porque talvez na próxima semana tudo mude, por isso vive-se o amor e o sexo com mais intensidade. Um caso de amor se transforma rapidamente numa paixão. Por isso, a personagem vive e se veste como alguém que deseja aproveitar ao máximo o momento presente, caso tudo isso acabe amanhã".
Para obter a autorização para filmar nas ruas de Beirute, foi preciso, conta Danielle Arbid, enviar o cenário 15 vezes para as autoridades responsáveis pela censura, queriam que não se falasse em Israel, no atentado a Haririe negavam haver espiões no Líbano. Exigiram também que a embaixada da França concordasse com as referências feitas a ela no filme, num documento assinado. E houve ameaças veladas, do tipo - "no seu lugar eu não faria esse filme".
"É uma sociedade esquizofrênica, onde nestes últimos dias os que manifestaram contra o governo sírio foram atacados na rua e apunhalados. Existem sempre os prós e os contras, isso faz o charme do Líbano, porém ao mesmo tempo se torna cansativo".
O IMAGINÁRIO IGNORA AS CRISES
O portugues Paulo Branco (foto), que emigrou para a Inglaterra em 1971 e depois para a França em 1973, de onde chegou a ser expulsou por ser clandestino, é hoje um dos maiores produtores do mundo do cinema independente e de arte.
Em Locarno, ele preside este ano o júri da competição internacional, da qual não participam nem filmes portugueses e nem brasileiros. Numa entrevista exclusiva, Paulo Branco fala de cinema, avalia a crise na produção dos filmes e fala da crise economica em Portugal.
Como o cinema se sai das crises que estamos vivendo ?
O cinema faz parte do imaginário de todos e portanto atravessa os períodos de crises sem crise. Quando houve a crise de 1929, havia uma grande público para o cinema tanto nos EUA como no mundo, portanto a crise não afeta. Ao contrário parece que as pessoas, em épocas de crise, precisam ver mais fições para se esquecer da realidade.
Houve pedidos de produção de filmes na África lusófona, há algum em produção?
Não, como sabe no cinema feito na África só uns poucos têm acesso para filmar as múltiplas fições. A Africa em si é um tema, com um fantástico imaginário para ser aproveitado pelo cinema, mas infelizmente isso não acontece por razões diversas mas próprias das dificuldades existentes na África. Eu acompanhei de perto a produção de um grande artista da língua portuguesa, o falecido Rui Duarte Carvalho, e a única fição que fez foi filmada em Cabo Verde, além de documentos sobre angolanos, documentários únicos. Portanto, minha ligação com a África tem sido muito desenvolvida mesmo porque meu eixo de trabalho está em Portugal e na França. E tem existir uma impossibilidade de eu produzir além dos que faço no momento.
Além de Manoel Oliveira, Raul Ruiz, que produção gostaria de destacar ou que está fazendo agora...
Acabei de produzir dois filmes rodados em Portugal, um sobre o assassinato de Humberto Delgado, chamado Operação Outono, obra de um jovem cineasta, Bruno de Almeida, e o último filme do Fernando Lopes, que é um grande cineasta português. Tenho outros projetos mas não gosto de falar deles antes de serem realizados. A minha relação com o cinema brasileira estava ligada à minha amizade, na época, com Glauber Rocha e com Nelson Pereira dos Santos, produzi um filme da Suzana de Moraes e pouco fiz nesse setor pelos mesmos motivos já explicados. O meu esforço maior foi quando não havia produção contínua em Portugal, fazendo redescobrir os cineastas portugueses e mesmo reinventá-los. E também descobrir cineastas na França, onde vivo, e a partir daí passei a trabalhar com outros cineastas, como lituanos, suíços e agora canadenses, mas isso são acasos de encontros. Na América Latina, trabalhei muito com o Ruiz, com o Hugo Santiago, Eduardo Gregório, portanto. Tenho a abertura para os continentes desde que surjam cineastas com projetos que me seduzam.
Falou em cineasta suíço me lembrei do Alan Tanner, um dos maiores da Suíça, e do alemão Wim Wenderes...
Com ambos tive uma relação contínua com muitos filmes. Um filme de Tanner que marcou foi A Cidade Branca. Tenho abertura e curiosidade para descobrir nvoas cinematografias, novos diretores, colaborar com cineastas com carreira mas pelos quais tenho admiração. Isso é o que se traduziu em tudo quanto fiz até agora.
Voce saiu de Portugal em 1971 e como se transformou no grande produtores conhecido de todos nós ?
São as transformações habituais dos jovens, sobretudo quando vivia, no fim dos anos 60 e começos de 70 de um clima no qual estávamos cortados completamente da Europa pelo regime político no qual vivíamos, mais a nossa curiosidade e necessidade que temos de conhecermos outros universos que escapassem do regime que obstavam quaisquer tipos de outras possibilidades. E foi assim que em 1971, no último ano da universidade, decidi não acabar o curso mas ir para Londres e a partir daí houve uma sucessão de acontecimentos que me levaram para a produção, quando nunca na minha vida pensei em ser produtor de cinema. Mas a profissão de cinema não se aprende mas é um misto de risco e do prazer do desconhecido e aos mesmo tempo de partilhar o imaginário dos outros e foi aí que encontrei o meu caminho.
Como é que você vê essa crise em Portugal que é uma crise não só européia como do capitalismo?
Vivemos um situação única e nos defrontamos com problemas que nunca pensamos que iríamos ter ou que sempre escondemos a existência. Como cidadão sinto a gravidade da situação e sem poder agir e ser obrigado a aceitar soluções que talvez não sejam as melhores. Soluções neoliberais que, no fundo, penso, irão aumentar ainda mais o fosso entre os que têm e não têm posses. E esse mito de que só com soluções neoliberais se poderá ultrapassá-la. Mas pode ser gravíssima não só para Portugal mas todo contiente europeu e só espero que acha um mínimo de bom senso, que, no momento, não acho estar havendo. Com relação ao cinema e à cultura, sempre sobrevivemos, nunca tivemos a atenção necessária, sobretudo em países pequenos como Portugal, em situações difíceis e é o que vai acontecer, mas esse é o mal menor em relação a tudo que vejo na sociedade e às dificuldades que a maior parte dos cidadãos estão a sofrer.

24 de Julho de 2010, by Rui Martins (diretodaredacao.com). Alguns jornais americanos e europeus mais apressados foram logo atribuindo à Al-Qaeda os atentados cometidos em Oslo, na Noruega, no qual morreram 92 pessoas e restam cinco desaparecidas. A razão invocada parecia evidente - seria em represália aos soldados noruegueses no Afganistão, à participação nos bombardeios líbios ou às caricaturas de Maomé.
Mas se enganaram. O autor dos atentados não usa turbante, nem se chama Mohamed ou Mustafá, nem tem barba, nem grita Alá é Grande e nem se suicidou como costumam fazer os kamikases islamitas.
É um autêntico escandinavo, alto e magro como um manequim, de cabelos loiros, rosto branco longo, bem escanhoado e olhos azuis. Suas fotos estão hoje em todos os jornais, na televisão, na Internet e na memória dos pais que perderam seus filhos queridos.
Anders Behring Breivik, legítimo descendente dos vikings, é o que as mulheres chamariam de um homem bonito com cara de anjo, que qualquer pai deixaria sair de noite com sua filha.
Engano fatal. Anders Behring Breivik é um assassino, cruel, impiedoso, que, na ilha de Utoya, passou uma hora e meia descarregando seu fuzil-metralhadora nos jovens participantes de um acampamento promovido pelo Partido dos Trabalhadores e teria matado um número maior, se não fosse a chegada de policiais alertados por desesperados twiters.
Ex-membro de um partido nacionalista, da direita populista da Noruega, na verdade da extrema-direita. O Partido do Progresso, seu nome, reúne os defensores dos ideais conservadores e quer a proteção da Noruega contra a invasão dos imigrantes estrangeiros, coisa de 10% de trabalhadores, que deixaram seus países ensolarados para terem emprego e bom salário no frio mas rico país exportador de petróleo.
Anders Behring Breivik é nacionalista, defende os valores culturais e religiosos do cristianismo fundamentalista, é contra o Islã ou religião muçulmana, contra o multiculturalismo, contra a mestiçagem da sociedade ocidental, contra os imigrantes e contra o socialismo trabalhistas democrático que governa o país. Frequentou um clube de tiro ao alvo, donde sua precisão no massacre perpretado, tinha revólver e fuzil-metralhadora em casa e aprendeu a fazer bomba com adubo agrícola. Bombas, diga-se de passagem, mais potentes que as usadas pela Al-Qaeda.
O bonito e angelical norueguês lembra um americano também capaz de colocar em prática seu ódio ideológico. Lembra Timothy McVeigh, do atentado também contra um prédio administrativo em Oklahoma City, no qual morreram 168 pessoas, em abril de 1965. Timothy era branco, jovem de 26 anos, e se sentia atraído pelas idéias extremistas dos neonazistas. E igualmente não se suicidou após o massacre cometido. Talvez se possa dizer que tanto Timothy como Anders sentiram-se satisfeitos por terem concluído seus projetos de ódio.
E se o autor dos atentados fosse islamita ? Provavelmente, haveria uma represália e se responsabilizaria a coletividade muçulmana. Porém, como Anders é noruegues, militante de extrema-direita como provam seus escritos sob pseudônimo na Internet e seu plano de massacre datado de 2009, não haverá uma responsabilização do fundamentalismo cristão, nem da ideologia da extrema-direita, que cresce nos países escandinavos. Se não aparecerem cúmplices nos atentados, Anders será considerado simplesmente um louco solitário e ponto final.
