
Berna (Suiça) - A notícia chegou lacônica – pelo Facebook, colocada pelo conselheiro titular Ronney Oliveria – “informo que a IV CBM será adiada para o primeiro semestre de 2012 em data a ser acordada com o CRBE”.
Para quem não entende de siglas, a IV CBM quer dizer IV Conferência Brasileiros no Mundo, que não se realizará mais do dia 3 ao dia 8 de outubro deste ano, como estava previsto. Azar de quem marcou férias ou mesmo comprou passagens para ir a Brasília acompanhar esse encontro.
A nota tem dois erros – o uso do verbo no futuro é indevido, leia-se “a conferência foi adiada”; e a informação de que será marcada uma data combinada com o CRBE, pois, assim como o adiamento foi inesperado e comunicado de cima para baixo sem possibilidade de recusa dos titulares do CRBE, assim será a nova data... se houver.
O que revela essa lacônica informação do titular da região dos EUA, guardada em segredo pelos demais, e que só assim se tornou público, nesse opaco, fechado e falido conselho de emigrantes ? Não se precisa ser leitor de borras de café, basta a experiência da leitura entrelinhas da ditadura, quando as notícias no Estadão ou na Veja deviam ser lidas nas entrelinhas.
O pomposo Conselho de Representantes dos Brasileiros no Exterior, CRBE, perdeu a credibilidade junto ao governo federal que, num primeiro gesto, cortou as verbas destinadas à atual frustrante política brasileira de emigração. Por culpa de quem ? De um lado do próprio governo, porque essa política como vem sendo aplicada não convence e apresentou numerosas falhas – nas eleições mal feitas houve fraude, em lugar da verba ser utilizada pelos emigrantes criou-se no Itamaraty um novo departamento, no qual foram lotados cerca de uma dezena de diplomatas, entre embaixador, futuro ministro-conselheiro, secretários, contando para promoções com a vantagem de não se precisar sair do Brasil.
Do outro, pelos próprios conselheiros que, tirando-se um e outro, não representam os emigrantes mas grupos comerciais e grupos religiosos, titulares envaidecidos, inebriados pela possibilidade de terem um cartão de visita com o brasão da República. Um grupo de pessoas sem formação política, apenas movidas por interesse pessoal e, por isso, incapaz de agir com discernimento diante dos problemas enfrentados pelos emigrantes, preferindo se submeter aos diplomatas do Itamaraty que, embora possam ser bem intencionados, não conseguiram criar um conselho transparente e vivo, mas um conselho burocratizado, emperrado, elitista e secreto.
Essa inexperiência acabou sendo utilizada por espertos candidatos a futuros políticos, formados porém no ranço conservador, na falta de respeito democrático e no próprio autoritarismo. Por ter feito, aqui críticas, muito mais amenas que as de hoje, fui afastado para não dizer expulso, excluído da lista de informação (as poucas existentes), sujeito a me retratar e fazer contrição caso quisesse ser reintegrado. E, como se não bastasse, mostrando o nível dos titulares, ((sobrou para mim a acusação de ser o “verme da Suíça”, coincidentemente o mesmo termo utilizado pela extrema-direita européia para designar imigrantes)).
É claro que tudo isso circulou, entre políticos e dentro do governo e essa péssima imagem dos conselheiros, entre Brutus e inquisidores, descredibilizou e está provocando o abandono do CRBE. Do jeito como está, é evidente, julga o governo um desperdício de dinheiro pagar passagens e hotéis para não se chegar a nenhum resultado, fora o risco de contendas.
Mas os emigrantes não devem se desesperar com isso. Sempre dissemos que as conferências Brasileiros no Mundo são um show, não tão bem preparado como o Focus Brazil, destinado a mostrar cenas para inglês ver. Está mesmo na hora de se baixar as cortinas.
O que os emigrantes precisam é de um órgão institucional emigrante independente do Itamaraty, mas interativo com todos os Ministérios – uma Secretaria de Estado dos Emigrantes. Mas irá funcionar com que dinheiro ? Com a mesma verba que o governo federal destinou à Subsecretaria das Comunidades Brasileiras no Exterior, utilizada atualmente para cargos de diplomatas.
Quanto custa essa Subsecretaria ao governo, contando-se diplomatas e funcionários, viagens, diárias e tudo nela aplicado ?
Se a presidenta Dilma nos ler, ela que tem reajustado algumas coisas nos ministérios com problemas, nossa proposta é justa, simples mas eficaz.
Com a dotação destinada atualmente à essa Subsecretaria, pode-se criar a Secretaria de Estado dos Emigrantes, com um emigrante na chefia e um pequeno quadro decisório, em Brasília. Esse será o ponto de partida para uma verdadeira política de emigração. Já que não vai haver IV Conferência, deve-se criar já uma Comissão de Transição para as mudanças e transferências necessárias.
Não é de hoje que falamos no nosso projeto mas não custa repetir – a política de emigração brasileira deve ser dirigida pelos próprios emigrantes, não tem sentido ficar sob a direção e tutela de diplomatas. Essa política deve incluir parlamentares emigrantes e um conselho de emigrantes, diferente do atual e bem mais amplo.
É hora de mudar e de repensar tudo. A experiência com o CRBE é conclusiva, não funciona!
Anexos
No final do mes de abril, fui contatado pela revista Época para dar uma entrevista sobre o CRBE. O texto publicado não correspondia às minhas críticas, mas fui considerado como o principal responsável. Apesar de ter perdido meus arquivos numa pane provocada no meu endereço hotmail, considerei localizar uma cópia do texto de minha entrevista enviada ao repórter da revista Época, que desmente totalmente as acusações que me foram feitas.
Esse texto segue abaixo. Abraços Rui Martins, suplente pela Europa, em processo administrativo pedido por seus colegas do CRBE, em curso no Itamaraty.
TEXTO ENVIADO EM FINS DE ABRIL PARA O JORNALISTA ELISEU DA ÉPOCA -
Caro Eliseu, segundo seu pedido, aí vão minhas observações-
O CRBE só tem valor se considerado como o primeiro passo do governo na elaboração de uma política brasileira de emigração. Nesse caso, vale como aprendizado pelos emigrantes do funcionamento do processo politico do acompanhamento de reivindicações até serem institucionalizadas como leis, regulamentos ou normais federais; aprendizado do procedimento parlamentar nas discussões, ordem do dia, naã organização de conferências e reuniões, bem como na elaboração de protocolos ou atas.
Mas esse aprendizado deve conduzir, num prazo máximo de cinco anos, à criação de uma Secretaria de Estado dos Emigrantes (no modelo das Secretarias da Mulher, da Igualdade Racial, dos Direitos Humanos), aprovação pelo Congresso de parlamentares (deputados e/ou senadores) emigrantes eleitos pelos emigrantes e criação de um verdadeiro Conselho de Emigrantes, representativo de todos os segmentos e regiões, ligado diretamente à Secretaria de Estado dos Emigrantes.
A tutela dos emigrantes pelo MRE, Itamaraty e seus diplomatas deve ser, portanto, uma simples e curta etapa.
A criação da Secretaria de Estado dos Emigrantes suspenderá imediatamente a Subsecretaria Geral das Comunidades Brasileiras no Exterior e suas dotações orçamentárias serão transferidas à Secretaria de Estado dos Emigrantes.
O atual quadro de diplomatas lotado na SGCB retorna ao MRE, pois a Secretaria de Estado dos Emigrantes (ou o super Ministério das Migrações, envolvendo migração, imigração e emigração) terá um quadro próprio, entre nomeados e concursados, todos emigrantes.
Sobre a Ata Consolidada
O MRE acaba de divulgar um encontro com outros ministérios e entidades, no qual foram discutidas questões relacionadas com a população emigrante. Ora,os emigrantes não deram delegação e nem procuração para os diplomatas cuidarem disso.
As questões dos emigrantes devem ser debatidas com os ministérios e entidades governamentais pelos próprios emigrantes, pela Secretaria de Estado dos Emigrantes, junto com os parlamentares emigrantes.
Para quem for ao site Brasileiros no Mundo, do MRE, e encontrar a Ata Consolidada,elaborada durante e após a III Conferência dos emigrantes, vai constatar que se trata de uma coletânea de boas intenções endereçadas aos bons favores do Itamaraty para que possa realizá-las. Isso porque o CRBE, responsável por essa Ata, não tem poder para tomar as iniciativas e nem pode fazer os contatos necessários à sua implementação.
O CRBE funcionando em separado, sem estar vinculado a uma Secretaria de Estado dos Emigrantes e sem contar com o apoio de parlamentares emigrantes, com mera função de assessoria e consultoria, submetido à tutela do Itamaraty, é um órgão anacrônico, baseado na política do paternalismo, coisa totalmente ultrapassada.
O MRE ganhou uma dotação orçamentária, lotou com jovens diplomatas todo um departamento, na SGCB, a pretexto de desenvolver uma política junto aos emigrantes, mas precisa ceder esse território ocupado indevidamente. Diplomata não é emigrante, mesmo se vive por vezes no Exterior.
Nosso projeto não é contra o Itamaraty, é por uma separação de atribuições porque diplomata e emigrante englobam questões e problemas diferentes. A Secretaria de Estado dos Emigrantes vai agir muitas vezes junto com o MRE, assim como com outros ministérios, mas de maneira independentee não tutelada. Os emigrantes têm quadros formados em Harvard, Sorbonne, Oxford e universidades de prestígio, são maiores, sabem o que querem não precisam das muletas do Itamaraty.
Reunião do CRBE em maio
O Itamaraty, através da SGBE, decidiu reunir os titulares do CRBE do dia 2 ao 6 de maio, em Brasília, para discutir a Ata Consolidada (a coletânea de boas intenções) e manter alguns contatos com órgãos do governo.
Apesar dos protestos de alguns e das sugestões de outros, os suplentes não participarão desse encontro.
Classificados como funcionários DAS-4, sem o serem e sem receberem qualquer pagamento, os conselheiros titulares viajarão, da Europa e da Ásia, em classe executiva, que custa três vezes mais que a classe econômica.
Um conselheiro emigrante no Japão tinha proposto que todos viajassem em classe ecônomica para que, com essa economia, pudessem também participar do encontro os suplentes. Mas o Itamaraty diz que não há base legal para isso.
Problema de funcionamento
Um grave problema de funcionamento decorre do fato dos membros do CRBE viverem em regiões distantes. Os contatos, foi provado nestes meses, são difíceis, e isso parece provar ser necessário uma base para funcionar. Ou seja, a Secretaria de Estado dos Emigrantes, em Brasília, num lugar fixo poderá funcionar sem problemas e seus membros, no caso de necessidade farão itinerância junto ao verdadeiro Conselho de Emigrantes, proposto mais em cima.
Falta de pagamentofavorece os emigrantes Vips
Nem todos os emigrantes podem participar desse benevolado do CRBE, econômico para o Itamaraty. Eu mesmo, como jornalista free lance, sou obrigado a não propor reportagens e não assumir compromissos para poder dar conta de minhas responsabilidades mesmo de suplente (já fui conselheiro titular no ano passado).
Essa situação favorece os emigrantes que dirigem associações religiosas, filantrópicas ou comerciais (são a maioria dos CRBE), pois as viagens e o envolvimento no CRBE fazem parte de suas atividades normais e lhes dão mesmo notoriedade.
Portanto, criar um órgão emigrante na base do benevolato, quando os diplomatas que participam dos encontros estão sendo pagos e mesmo compensando dias de trabalho no Rio com dias de férias, é inegalitário e favorece só uma certaclasse de emigrantes.
Nossa representante em Nagoya, que foi conselheira do Conselho Provisório, operária metalúrgica, teve despesas para encontrar os diretores da SGBE que nunca foram pagas. Mas os diplomatas da SGBE que foram a Tóquio tinham hotel e diárias pagas !
Sem dotação para funcionar
Como destaquei em Genebra (está no youtube), o CRBE não tem uma dotação orçamentária para funcionar (talvez tenha para pagar os diplomatas lotados nesse setor), ou seja, as viagens e conferências têm sempre de esperar uma aprovação orçamentária, o que demonstra a improvisação e aprecariedade desse Conselho.
Comissão de Transição
Sem a transição para uma Secretaria de Estado dos Emigrantes o CRBE é vitrina, coisa para inglês ver ou cena de teatro para dar a impressão de que se está fazendo alguma coisa pelos emigrantes.
Esperamos que a presidenta Dilma possa ser informada dessa situação e criar rapidamente a Secretaria de Estado dos Emigrantes, o que assinalará o começo de uma real Política Brasileira de Emigraçao, por enquanto, há muito blablabla e muitas boas intenções e um grande equívoco, pois os diplomatas não são emigrantes e não há nenhuma afinidade entre emigrantes e diplomatas.
A questão principal e primordial é isso, sair da tutela do Itamaraty. Questões como cartões de visita, passaporte diplomático, viagens em classe econômica ou executiva são secundárias e não devem desviar os emigrantes da questão principal – sua autodeterminação e sua independência.

Locarno (Suiça), 5 de agosto de 2011, by Rui Martins
(Diretodaredacao.com)- A Suíça é o único país da Europa que, para deportar imigrantes de avião, usa o método do entrave, ou seja, eles ficam com os pés e as mãos algemados e uma corrente impede que possam ficar de pé. Durante o vôo, que pode durar mais de dez horas, o imigrante expulso não pode ir ao banheiro e é obrigado a ir fazendo nas calças suas necessidades. Três imigrantes já morreram durante esses vôos e tinham sido presos sem qualquer delito cometido.
O método suíço é bárbaro, indigno e vergonhoso e foi regulamentado durante a presença, na junta de sete ministros que governa o país, do ministro do Partido do Povo, Christoph Blocher, líder da extrema-direita, chamada de populista mas com comportamento de partido neo-nazista.
Esse Partido, com quase 30% de votos nas eleições legislatives, é o maior da Suíça. Costuma promover campanhas contra imigrantes, propor votações populares com o objetivo de transformar os estrangeiros em bodes expiatórios de todos os males suíços, política semelhante à usada por Hitler contra os judeus.
Uma nova lei do ministério da Justiça no departamento de emigração, inclui a obrigação dos diretores de escolas denunciarem as crianças de imigrantes sem papéis. Essa proposta adicional ao arsenal de medidas deixada pelo ex-ministro do Partido do Povo, se deve à nova ministra que é do Partido Socialista. Lei semelhante não existe nos outros países europeus, mas tinha sido criada, em 1935, na Alemanha nazista, e consistia na obrigação dos professores denunciarem os alunos judeus, ciganos ou filhos de comunistas.
Essas revelações foram feitas no decurso do encontro com a imprensa do cineasta Fernand Melgar, depois da exibição do seu filme Vôo Especial, concorrendo ao Leopardo de Ouro. Melgar já fez outro filme, há poucos anos, Forteresse , sobre os campos de refugiados, onde ficam presos os estrangeiros enquanto aguardam os julgamentos de seus pedidos de refúgio.
O novo filme de Fernand Melgar foi autorizado a documentar o lugar onde ficam presos os “sem papéis”, alguns deles já tendo família na Suíça onde vivem há mais de dez anos e mesmo vinte anos, como um kosovar em fase de expulsão, que saiu do Kosovo na época da guerra e não tem mais nenhuma ligação com seu país de origem, tendo se integrado à Suíça.
Fernand Melgar fará um terceiro filme sobre os imigrantes, mostrando como vivem no país de origem os imigrantes expulsos.
Na prisão de filmagem, localizada no lado suíço-francês, conta Melgar, o tratamento por parte dos responsáveis é correto, mas do lado suíço-alemão os imigrantes chegam a ficar em células isoladas, sem terem cometido qualquer crime ou delito, razão pela qual ocorrem suicídios.
Fernand Melgar deixa claro haver uma responsabilidade coletiva do povo suíço nessas medidas desumanas e discricionárias, pois foi o povo suíço quem votou e autorizou essas ações contra os imigrantes.
A USINA DE SONHOS E OS EXTRATERRESTRES
Um filme Super-8 de adolescentes se transforma na trama do filme principal com os ingredientes típicos americanos – extraterrestres, complôs, efeitos especiais, um blockbuster inteligente, divertido, num clima de tensão controlada.
Logo no início do cinema, Hollywood era um exemplo da alienação cultural para os soviéticos, para os quais a meca do cinema nascente era uma usina de sonhos. Longe estavam de imaginar na sua crítica ortodoxa e fundamentalista, que Hollywood se tornaria sinônimo de entretenimento mundial e que o cinema também poderia ser instrumento social.
Mas a usina de sonhos tinha seus problemas para os fabricantes de sonhos e fantasias, pois Charles Chaplin, ainda no cinema mudo preto e branco, começou a propor filmes de fundo social, tragicomédias com o pano de fundo da crise de 1929 e o próprio Carlitos era um símbolo. O desvio do entretenimento para a crítica social, comum na cinematografia européia, foi definitivamente interrompido durante o macartismo e o cinema hollywoodiano assim como as séries de televisão, mesmo atuais, privilegiam só o psicológico em lugar do social.
Ou, a simples fantasia, que leva às personagens dotadas de poderes sobrenaturais, como Superhomem, ou aos excitantes filmes sobre os extraterrestes, que durante a guerra-fria poderiam estar vivendo entre nós e talvez seriam os soviéticos. Sem se esquecer serem os americanos entusiasmados e ingênuos aficionados das teorias de complôs.
Super-8, o filme de abertura do Festival Internacional de Cinema de Locarno tem fantasia, complô, extraterrestres num clima de filmes antigos de detetives estrelados por jovens desobedientes dentros dos limites e inteligentes.
Com essa receita, de um filme Super-8, rodado com poucos recursos para concorrer num festival regional de curtas-metragens, dentro de um filme de 35mm ou digital, o diretor J.J.Abrams, ele próprio um super-dotado roteirista, diretor e produtor do filme, garante o lazer, num domingo chuvoso, ou para começo de uma soirée num cinema de tela grande.
Um grupo de adolescentes, num lugarejo de Ohio, está rodando uma história de mortos-vivos, numa estação ferroviária, quando ocorre um acidente, provocado por um professor cientista, contra um trem transportando equipamentos secretos do exército, em luta contra um extraterrestre, cuja espaçonave caíra no nosso planeta.
Militares autoritários, como costumam ser, contra um cientista, evacuam a cidade sem contar a razão, prendem o prefeito local mas são os adolescentes que permitem desvendar o complô. Exceto um deles que, nos momentos mais difíceis, nada viu por estar fumando maconha.
AMOR, PAIXÃO E ESPIONAGEM EM BEIRUTE
As cenas são de paixão tórrida e recente num hotel, mas as personagens não são tão simples para se construir uma história de amor – ela é libanesa, cantora de buate em fase de divórcio de um marido inconformado com a separação; ele é francês, advogado encarregado de acertar uns contratos com a Síria, mas suspeito de espião israelense.
No pano de fundo, a Beirute rica, onde as tensões políticas, atentados, ameaças e execuçõe subsistem mesmo depois de terminados os sequestros. Famílias potentes, grupos, serviços secretos, suspeitas, ameaças são cotidiano, no dizer da própria cineasta Danielle Arbid, já premiada em Locarno e vivendo na França.
Nesse clima de insegurança, de medo constante e de risco de morte inesperada, o desejo e a paixão carnal se acentuam e o orgasmo entre dois seres tão antagônicos provocam faíscas e aquecem como fios elétricos de polos diversos até explodirem como bomba.
"Faz vinte anos que vivo na França mas quando vou a Beirute, não posso negar", conta Danielle Arbid, "vivo uma espécie de paranóia e tenho medo, com o qual muitos se acostumam ou aceitam de maneira fatalista, a ponto de trocar constantemente de hotel".
"Tenho medo",confessa ela, "da guerra entre nós libaneses e da guerra com os outros, como Israel, medo de tudo que nos leve aos caos e medo da violência, porque há muita violência num clima de falsa quietude. Um dia, durante as filmagens metade da cidade estava controlada, dadas as brigas entre xiitas e sunitas".
No filme, Danielle imprime essa sensação de paranóia, transportada para um casal em começo de história de amor, na qual um não conhece a outro, se indagam e se suspeitam.
"Na Europa", explica a diretora do filme, "sente-se menos esse clima, felizmente, depois de tantos anos sem guerras. A guerra é mais econômica, luta-se para se achar um emprego e assegurar o futuro. No Líbano não existe esse sentimento de segurança, porque talvez na próxima semana tudo mude, por isso vive-se o amor e o sexo com mais intensidade. Um caso de amor se transforma rapidamente numa paixão. Por isso, a personagem vive e se veste como alguém que deseja aproveitar ao máximo o momento presente, caso tudo isso acabe amanhã".
Para obter a autorização para filmar nas ruas de Beirute, foi preciso, conta Danielle Arbid, enviar o cenário 15 vezes para as autoridades responsáveis pela censura, queriam que não se falasse em Israel, no atentado a Haririe negavam haver espiões no Líbano. Exigiram também que a embaixada da França concordasse com as referências feitas a ela no filme, num documento assinado. E houve ameaças veladas, do tipo - "no seu lugar eu não faria esse filme".
"É uma sociedade esquizofrênica, onde nestes últimos dias os que manifestaram contra o governo sírio foram atacados na rua e apunhalados. Existem sempre os prós e os contras, isso faz o charme do Líbano, porém ao mesmo tempo se torna cansativo".
O IMAGINÁRIO IGNORA AS CRISES
O portugues Paulo Branco (foto), que emigrou para a Inglaterra em 1971 e depois para a França em 1973, de onde chegou a ser expulsou por ser clandestino, é hoje um dos maiores produtores do mundo do cinema independente e de arte.
Em Locarno, ele preside este ano o júri da competição internacional, da qual não participam nem filmes portugueses e nem brasileiros. Numa entrevista exclusiva, Paulo Branco fala de cinema, avalia a crise na produção dos filmes e fala da crise economica em Portugal.
Como o cinema se sai das crises que estamos vivendo ?
O cinema faz parte do imaginário de todos e portanto atravessa os períodos de crises sem crise. Quando houve a crise de 1929, havia uma grande público para o cinema tanto nos EUA como no mundo, portanto a crise não afeta. Ao contrário parece que as pessoas, em épocas de crise, precisam ver mais fições para se esquecer da realidade.
Houve pedidos de produção de filmes na África lusófona, há algum em produção?
Não, como sabe no cinema feito na África só uns poucos têm acesso para filmar as múltiplas fições. A Africa em si é um tema, com um fantástico imaginário para ser aproveitado pelo cinema, mas infelizmente isso não acontece por razões diversas mas próprias das dificuldades existentes na África. Eu acompanhei de perto a produção de um grande artista da língua portuguesa, o falecido Rui Duarte Carvalho, e a única fição que fez foi filmada em Cabo Verde, além de documentos sobre angolanos, documentários únicos. Portanto, minha ligação com a África tem sido muito desenvolvida mesmo porque meu eixo de trabalho está em Portugal e na França. E tem existir uma impossibilidade de eu produzir além dos que faço no momento.
Além de Manoel Oliveira, Raul Ruiz, que produção gostaria de destacar ou que está fazendo agora...
Acabei de produzir dois filmes rodados em Portugal, um sobre o assassinato de Humberto Delgado, chamado Operação Outono, obra de um jovem cineasta, Bruno de Almeida, e o último filme do Fernando Lopes, que é um grande cineasta português. Tenho outros projetos mas não gosto de falar deles antes de serem realizados. A minha relação com o cinema brasileira estava ligada à minha amizade, na época, com Glauber Rocha e com Nelson Pereira dos Santos, produzi um filme da Suzana de Moraes e pouco fiz nesse setor pelos mesmos motivos já explicados. O meu esforço maior foi quando não havia produção contínua em Portugal, fazendo redescobrir os cineastas portugueses e mesmo reinventá-los. E também descobrir cineastas na França, onde vivo, e a partir daí passei a trabalhar com outros cineastas, como lituanos, suíços e agora canadenses, mas isso são acasos de encontros. Na América Latina, trabalhei muito com o Ruiz, com o Hugo Santiago, Eduardo Gregório, portanto. Tenho a abertura para os continentes desde que surjam cineastas com projetos que me seduzam.
Falou em cineasta suíço me lembrei do Alan Tanner, um dos maiores da Suíça, e do alemão Wim Wenderes...
Com ambos tive uma relação contínua com muitos filmes. Um filme de Tanner que marcou foi A Cidade Branca. Tenho abertura e curiosidade para descobrir nvoas cinematografias, novos diretores, colaborar com cineastas com carreira mas pelos quais tenho admiração. Isso é o que se traduziu em tudo quanto fiz até agora.
Voce saiu de Portugal em 1971 e como se transformou no grande produtores conhecido de todos nós ?
São as transformações habituais dos jovens, sobretudo quando vivia, no fim dos anos 60 e começos de 70 de um clima no qual estávamos cortados completamente da Europa pelo regime político no qual vivíamos, mais a nossa curiosidade e necessidade que temos de conhecermos outros universos que escapassem do regime que obstavam quaisquer tipos de outras possibilidades. E foi assim que em 1971, no último ano da universidade, decidi não acabar o curso mas ir para Londres e a partir daí houve uma sucessão de acontecimentos que me levaram para a produção, quando nunca na minha vida pensei em ser produtor de cinema. Mas a profissão de cinema não se aprende mas é um misto de risco e do prazer do desconhecido e aos mesmo tempo de partilhar o imaginário dos outros e foi aí que encontrei o meu caminho.
Como é que você vê essa crise em Portugal que é uma crise não só européia como do capitalismo?
Vivemos um situação única e nos defrontamos com problemas que nunca pensamos que iríamos ter ou que sempre escondemos a existência. Como cidadão sinto a gravidade da situação e sem poder agir e ser obrigado a aceitar soluções que talvez não sejam as melhores. Soluções neoliberais que, no fundo, penso, irão aumentar ainda mais o fosso entre os que têm e não têm posses. E esse mito de que só com soluções neoliberais se poderá ultrapassá-la. Mas pode ser gravíssima não só para Portugal mas todo contiente europeu e só espero que acha um mínimo de bom senso, que, no momento, não acho estar havendo. Com relação ao cinema e à cultura, sempre sobrevivemos, nunca tivemos a atenção necessária, sobretudo em países pequenos como Portugal, em situações difíceis e é o que vai acontecer, mas esse é o mal menor em relação a tudo que vejo na sociedade e às dificuldades que a maior parte dos cidadãos estão a sofrer.

24 de Julho de 2010, by Rui Martins (diretodaredacao.com). Alguns jornais americanos e europeus mais apressados foram logo atribuindo à Al-Qaeda os atentados cometidos em Oslo, na Noruega, no qual morreram 92 pessoas e restam cinco desaparecidas. A razão invocada parecia evidente - seria em represália aos soldados noruegueses no Afganistão, à participação nos bombardeios líbios ou às caricaturas de Maomé.
Mas se enganaram. O autor dos atentados não usa turbante, nem se chama Mohamed ou Mustafá, nem tem barba, nem grita Alá é Grande e nem se suicidou como costumam fazer os kamikases islamitas.
É um autêntico escandinavo, alto e magro como um manequim, de cabelos loiros, rosto branco longo, bem escanhoado e olhos azuis. Suas fotos estão hoje em todos os jornais, na televisão, na Internet e na memória dos pais que perderam seus filhos queridos.
Anders Behring Breivik, legítimo descendente dos vikings, é o que as mulheres chamariam de um homem bonito com cara de anjo, que qualquer pai deixaria sair de noite com sua filha.
Engano fatal. Anders Behring Breivik é um assassino, cruel, impiedoso, que, na ilha de Utoya, passou uma hora e meia descarregando seu fuzil-metralhadora nos jovens participantes de um acampamento promovido pelo Partido dos Trabalhadores e teria matado um número maior, se não fosse a chegada de policiais alertados por desesperados twiters.
Ex-membro de um partido nacionalista, da direita populista da Noruega, na verdade da extrema-direita. O Partido do Progresso, seu nome, reúne os defensores dos ideais conservadores e quer a proteção da Noruega contra a invasão dos imigrantes estrangeiros, coisa de 10% de trabalhadores, que deixaram seus países ensolarados para terem emprego e bom salário no frio mas rico país exportador de petróleo.
Anders Behring Breivik é nacionalista, defende os valores culturais e religiosos do cristianismo fundamentalista, é contra o Islã ou religião muçulmana, contra o multiculturalismo, contra a mestiçagem da sociedade ocidental, contra os imigrantes e contra o socialismo trabalhistas democrático que governa o país. Frequentou um clube de tiro ao alvo, donde sua precisão no massacre perpretado, tinha revólver e fuzil-metralhadora em casa e aprendeu a fazer bomba com adubo agrícola. Bombas, diga-se de passagem, mais potentes que as usadas pela Al-Qaeda.
O bonito e angelical norueguês lembra um americano também capaz de colocar em prática seu ódio ideológico. Lembra Timothy McVeigh, do atentado também contra um prédio administrativo em Oklahoma City, no qual morreram 168 pessoas, em abril de 1965. Timothy era branco, jovem de 26 anos, e se sentia atraído pelas idéias extremistas dos neonazistas. E igualmente não se suicidou após o massacre cometido. Talvez se possa dizer que tanto Timothy como Anders sentiram-se satisfeitos por terem concluído seus projetos de ódio.
E se o autor dos atentados fosse islamita ? Provavelmente, haveria uma represália e se responsabilizaria a coletividade muçulmana. Porém, como Anders é noruegues, militante de extrema-direita como provam seus escritos sob pseudônimo na Internet e seu plano de massacre datado de 2009, não haverá uma responsabilização do fundamentalismo cristão, nem da ideologia da extrema-direita, que cresce nos países escandinavos. Se não aparecerem cúmplices nos atentados, Anders será considerado simplesmente um louco solitário e ponto final.

24 de Julho de 2010, by Rui Martins (diretodaredacao.com). Desta vez, o Festival de Locarno vai ser também um festival de stars. Além de ser uma plataforma para o cinema independente de todo mundo, inclusive os emergentes, Locarno abriu também um espaço para filmes com elencos de prestígio, nas projeções para a Piazza Grande, com seu telão com cerca de 300 m2.
Assim, estão previstas as presenças de Claudia Cardinale, Harrison Ford, Leslie Caron, Ingrid Caven, Aki Kaurismaki, Kabir Bedi, Guy Bedos, Abel Ferrara, Mike Medavoy, Bruno Ganz, Adoor Gopalakrishnan, Olivia Wilde, Claude Goretta, Hitoshi Matsumoto, Kati Outinen, Nicolas Winding Refn, Daniel Craig, Pierre Richard, Maribel Verdú, Anri Sala et Daniel Brühl.
Mas como nem tudo pode ser perfeito, não há longas-metragens brasileiros nas competições. Ao fechar a seleção, Olivier Père, diretor do Festival, afirma que alguns filmes não seriam terminados antes de agosto, enquanto aqueles que foram vistos não respondiam aos critérios e expectativas do Festival.
Porém, dois curtas concorrem na Seção Leopardos de Amanhã, são – Mens Sana in Corpore Sano, de Juliano Dornelles, com duração de 22 minutos; e Praça Walt Disney, de Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira, com 21 minutos.
Da América Latina, só filmes da Argentina e do Chile. O problema do cinema brasileiro continua sendo a televisão, que contrata os melhores cineastas para as telenovelas ou dos cineastas que, sob a pressão comercial, fazem filmes mais adaptados para a televisão.
Como fizera o Festival de Berlim, haverá uma homenagem ao cineasta iraniano Jafar Panahi, cumprindo prisão de 6 anos, por ter criticado o governo iraniano e proibido de fazer novos filmes durante 20 anos. Locarno projetará o filme Espelho, segundo longa-metragem de Panahi, premiado com o Leopardo de Ouro, no Festival de Locarno de 1997.
O Festival de Locarno dedicará uma grande retrospectiva ao cineasta americano Vincente Minelli, mestre da comédia musical e do melodrama hollywoodiano, com a projeção de todos os seus filmes. Leslie Caron, a inesquecível atriz de Um Americano em Paris e Lili,apresentará seu livro autobiográfico Uma Francesa em Hollywood.
FALA O DIRETOR FESTIVAL
“Este ano tivemos de renunciar a mostrar filmes brasileiros porque ou não estavam prontos ou os que foram vistos pelo comitê de seleção não foram escolhidos”. Olivier Père, diretor do Festival de Locarno.
Segundo o presidente do Festival de Locarno, Marco Solari, circula um rumor no mundo dos festivais que o diretor do Festival de Veneza, Marco Mueller, ao chegar em alguns países para obter filmes tem uma surpresa - « Olivier Père já passou antes por aqui », lhe dizem.
Ao que parece, o novo diretor do Festival de Locarno é muito ativo e tem conseguido atrair para Locarno produtores e cineastas que preferiam outros festivais. Ao que parece, esta edição do 64. Festival de Locarno, vai ser das melhores, tanto na Piazza Grande, onde haverá o cinema entretenimento, como nas salas diversas dedicadas ao cinema independente e ao cinema de autor.
O francês Olivier Père, ex-diretor da Semana da Crítica, no Festival de Cannes, entra no segundo ano como diretor-artístico do Festival de Locarno e no encontro com a imprensa, em Berna, no qual anunciou os filmes programados, deu uma entrevista para o Direto da Redação.
DR - Como assume esse seu segundo ano, na direção do Festival de Locarno ?
O primeiro ano foi de aprendizem e de experiência, no qual aprendi muita coisa, mesmo se eu já havia refletido sobre minha visão do Festival e sobre as modificações que gostaria de trazer. Este ano vai ser o da confirmação e de reafirmação de objetivos e de ambição, que são certamente realizados este ano, porque pudemos refletir no que se poderia melhorar o Festival em comparação com o ano precedente, com o conteúdo mais rico em consequência das reformas feitas na competição, nas seções e na redução do número de filmes, e com a presença de grandes filmes, grandes autores e grandes stars.
DR - Foi muito difícil a programação ?
Não porque este ano foi muito rico na produção de filmes e também no cinema independente, isso no que se refere a todas as regiões, asiática, americana, européia e, igualmente, porque ((nos beneficiamos da boa reação da imprensa, extremamente positiva)), quando do festival do ano passado, criando curiosidade, interesse e desejo na imprensa, mas igualmente entre os profissionais, cineastas, atores, produtores e distribuidores para virem pela primeira vez ao Festival, tornando mais fácil convencê-los. Criou-se assim uma relação de confiança facilitando a aceitação de nosso convite para virem participar.
DR- Não há filme brasileiro na competição, qual o motivo ?
É verdade, no ano passado havia até um filme na competição mas este ano tivemos de renunciar a mostrar filmes brasileiros porque ou não estavam prontos ou os vistos pelo comitê de seleção não foram escolhidos. É isso, isso depende de cada ano e este ano não foi favorável ao cinema brasileiro.
DR - Ou será que Marco Mueller, de Veneza, passou antes pelo Brasil?
Pode ser, porém ele viu os mesmos filmes que nós. Não sei se há filmes em outros festivais, mas houve filmes brasileiros em Cannes.
DR - Ou será pela má influência da televisão como se diz...
É verdade, muitos produtores, observadores e cineastas se queixam da má influência da televisão brasileira sobre o cinema, não só no plano da produção como da estética. E é verdade que os financiadores estão mais propensos a financiar filmes comerciais pra a televisão do que apoiar o cinema de autor, o que é lamentável.
DR - E na América Latina o que temos, só a Argentina ?
Não, há também o Chile, um filme de Sebastian Lelio, que é dos jovens cineastas chilenos. Da Argentina, há diversas coproduções, como Abrir Puertas y Ventanas, de Milagros Mumenthaler, feito com a Suíça, e na seção Cineastas do Presente, o filme El Estudiante, um muito bom primeiro filme de Santiago Mitre.
DR - Podemos, então dizer que o cinema argentino é melhor que o brasileiro ?
Não, depende de cada ano, deve-se notar que também este ano não há nenhum filme mexicano. Existe uma certa constância no cinema argentino mas não é uma obrigação. No ano passado, por exemplo, não havia filme argentino na competição e desta vez há dois, depende...
DR - E, na língua portuguesa, temos no júri um produtor português...
É verdade, o presidente do júri é o produtor português Paulo Branco e há um curta-metragem português na competição Cineastas do Presente, É na Terra não é na Lua, de Gonçalo Tocha.
Paulo Branco é um grande produtor, um aventureiro da produção, quase uma personagem mítica, que já foi premiado em Locarno, alguém que tem feito muito pelo cinema independente europeu e pelo cinema de autor, relançando, por exemplo, a carreira do cineasta Manoel de Oliveira, de Raul Ruiz e de diversos cineastas franceses e que está produzindo no Canadá o filme de David Cronenberg.
Quanto ao cinema português considero um dos mais belos da Europa, onde existe um viveiro de jovens cineastas talentosos, de Miguel Gomes a João Pedro Rodrigues, e é também um cinema muito poético. Um cinema de observação do mundo com um olhar bastante poético sobre a vida, o que faz sua força, que lhe dá algumas vezes uma dimensão filosófica e metafísca, como em Oliveira e Monteiro.

19 de Junho de 2011, by Rui Martins.
Aqui o vergonhoso ato de condenação promulgado por um Conselho que reune vários religiosos, que pelo visto pregam o ódio em vez do perdão.
Prezado Conselheiro Suplente Rui Martins,
venho através desta manifestar a decisão da maioria dos Conselheiros Titulares do CRBE em acatar a vossa solicitação com as seguintes ponderações da vossa parte:
1) Comunicação pública reconhecendo que houve excesso nas criticas ao CRBE;
2) Manifestação sobre reconsideração do CRBE na coluna ¨Direto da redação¨, facebook e outros canais de comunicação;
3) Destacar a ¨seriedade e equilibrio¨ do CRBE no encaminhamento das demandas dos brasileiros residentes no exterior, um fato concreto é o Plano de Ação elaborado na reunião de trabalho em Brasilia;
4) Reafirmar que o encaminhamento da abertura do processo administrativo junto ao MRE fora feito de forma consciente e responsável por todos os Conselheiros Titulares;
5) Ter a clareza de que o aceite do pedido manifestado através do e-mail intitulado ¨Compromisso pela Pacificação¨ não se trata de declaração do CRBE ter agido de forma irresponsavel em relação a solicitação de abertura do processo administrativo encaminhado ao MRE.
6) Os itens citados acima deverão constar no comunicado oficial a ser encaminhado pelo Conselheiro Rui Martins para o MRE (resposta da notificação recebida).
Apesar do e-mail ter sido direcionado para a Presidencia do CRBE, a consulta dirigido a todos os integrantes titulares foi necessário para a tomada de decisão seja coletivo.
Atenciosamente,
Carlos Shinoda, Presidente do CRBE
----------------------------------
Aqui a carta de Flavio Carvalho
Nota do Editor - Recebemos de Flávio Carvalho, um dos membros titulares do Conselho de Representantes dos Brasileiros no Exterior, a carta resposta abaixo. Publicâmo-la rigorosamente do jeito que a recebemos, respeitando palavras em letras capitais e sem nenhum parágrafo. Sobre o vergonhoso processo de expulsão ou rendição do conselheiro-suplente Rui Martins, objeto do artigo acima, nenhuma palavra. Leia e julgue você mesmo como pensa um representante dos emigrantes brasileiros.
Quando se diz defensor da pluralidade de opiniões e liberdade de expressão (assim também posso me considerar ou é propriedade exclusiva de V.Sas.?), por favor, retifique, se for o caso. Liberdade de expressão significa VALE TUDO? Baixaria tem limites - ou é bom porque vende? Não é verdade que quando o senhor escreveu sobre o CRBE "ninguém lhe contestou". No dia 25 de maio, tenho cópia guardada, de haver enviado exatamente para sua FONTE, o Sr. Martins "Carta aberta ao jornalista Eliakim Araújo sobre o CRBE", mui respeitosamente, contra-argumentando, não nesse baixo nível. Baixaria que contradiz a seção de comentários do vosso site: MENSAGENS DE CUNHO OFENSIVO OU POLITICAMENTE INCORRETAS NAO SERAO PUBLICADAS. Talvez o desespero dessa única pessoa no mundo capaz de propor uma anti-campanha contra o voto dos brasileiros emigrantes na última campanha presidencial esteja se espalhando agressivamente por todo o DR (pergunte-lhe ao mesmo, se convém). Basta de absurdos e de baixarias. De Bolsonaros - que também se diz vítima, como o Sr. Martins – já há muitos. De Tiriricas (“sou contra isso, mas me candidato para não perder essa boquinha”), também. De Imperadores que tocam fogo na própria cidade, pra depois sair gritando “Incêndio” e os bobos, desinformados, trazerem água ao que cospe no prato onde come, também. Ave César! Como profissional da comunicação – há muitos anos lhe acompanho – deveria preocupar-se com a falácia da mentira repetida tantas vezes até que se torne verdade. Isso se realmente lhe preocupa ser um brasileiro no exterior que, como eu (e o senhor?!) e a maioria dos tantos milhares que neste momento cobram uma miséria (eu, faço questão de lhe comprovar, um salário mínimo, imagino que V.Sa., com todo seu mérito e direito, um pouco mais), por debaixo de nossas qualificações, sendo vítimas por um outro lado de uma discriminação (xenófoba, em muitos casos) cotidiana na Europa, nos Estados Unidos e no mundo todo. E ainda nos propomos a colaborar voluntariamente, hoje com meu filho de 2 anos e meio com muita febre num hospital público sem ter com quem deixá-lo e aqui voluntariamente tendo que lhe responder e DESMENTIR... Tentando fazer algo pelos que mais sofrem – uma única proposta do Sr. Martins em 4 Conferências Públicas que não seja defender um cargo público de “Ministro da Emigração” e será premiado aquele que apresentar - e nos deparamos com essa podridão de vaidades e interesses (principalmente políticos e econômicos, 7 bilhões de dólares, não esqueçam da empresa Estado dos Emigrantes apoiada pelo bilionário Donald Trump) escondidos, desunindo o que era para ser uma lição de união, desagregando o que era para ser coletivo. Desmotivando o que era pra ser união para defender que o Brasil atenda melhor aquele que se sente hoje mais brasileiro do que quando estava no Brasil. “É o Brasil”, no Brasil ou no Exterior. Enfim, e a bem da VERDADE, para ver a que ponto chegamos... “Amigo do Cônsul de Madri”: se nem o conheço pessoalmente!!! “E agora trabalha lá no Consulado e no CRBE”. Mantém seu interesse em esclarecer a verdade, como compromisso público e ético da comunicação social ou quer deixar a mentira para ver se cola? Trabalhar no CRBE? Como, se é voluntário?! Até hoje guardo meus comprovantes pra demonstrar o que significa gastar o que não se tem para ser voluntário... Trabalhar no Consulado de Madri, se nem mesmo em Madri eu nunca vivi, nem nunca dei expediente em consulado? Outro dia diziam que eu deixei de emitir passaporte... se até meu documento eu perdi o prazo de vencimento!!! Rir, pra não chorar... Daqui a pouco vao dizer que fui promovido a Embaixador; vou entrar pro livro Guiness dos Recordes como o Embaixador que menos salário recebe no mundo!!! Aliás, deixar uma afirmação mentirosa como eu ter migrado pra Madri, quando isso NUNCA aconteceu, foge dos limites. Só me resta apelar para minha declaração de residência, a quem interessar possa... Centrar-se em ataques pessoais, contra alguém que nem conhece? Se a Ordem do Rio Branco não foi pra mim, mas pra dezenas de pessoas que trabalham contra o que o Sr. Martins é contra, a união em rede dos brasileiros na Europa? A pergunta fica: COM QUAIS REAIS INTERESSES?! É verdade. Tem “alguma coisa podre”. Assim, prefiro nem ler mais o Direto da Redação – de tão bom que era... Contanto que depois não venham inventar mentira de que sou contra quem lê, por favor... Viva a VERDADEIRA liberdade de expressão. Abaixo a baixaria nos meios de comunicação.
Aqui a resposta de Rui Martins
Flavio carvalho mente
O sr. Flávio de Carvalho, vale lembrar, que é vice-presidente do CRBE, teve seu texto publicado, como queria, no Direto da Redação, e foi excelente porque deu uma idéia do seu verdadeiro perfil.
Mas usa de meias verdades a serem explicadas e corrigidas. Refutando um dos comentários de leitores abaixo, no qual se afirma ser ele amigo do Consul de Madri, Flavio Carvalho se faz de anjinho, e argumenta não conhecer, nem frequentar e nem trabalhar para o Consulado de Madri.
É verdade, o leitor se enganou não quanto ao fato denunciado mas quanto ao nome da cidade. Não se trata de Madri, mas de Barcelona. Lá, parodiando-se Manuel Bandeira, Flávio de Carvalho era amigo do rei. Não é mais porque o embaixador Consul de Barcelona se aposentou.
Mas teve tempo para lhe conseguir uma medalha Barão do Rio Branco por serviços prestados à comunidade emigrante brasileira em menos de três anos. Tendo chegado em Barcelona no decorrer de 2005, o Diário Oficial da União publicou a concessão da medalha na metade de 2008. Sabendo-se que existe um trâmite administrativo para tais honrárias chegarem ao presidente que as assina, foi realmente algo digno de ser incluído no livro Guinness de recordes.
Flavio Carvalho, que está na folha de pagamento do Consulado de Barcelona e trabalha no Centro de Cultura Brasileira de Barcelona, conseguiu, por interferência do Itamaraty, dispensa do Consulado durante a semana da reunião do CRBE em Brasilia este ano.
Pode ser que o Itamaraty ache não haver incompatibilidade legal, porém é evidente uma incompatibilidade ética. Quanto à declarada defesa da « verdadeira » liberdade de expressão seria bom lembrar que Flávio Carvalho foi um dos articuladores, no encontro de maio em Brasília, de minha expulsão do CRBE.
Seria bom perguntar ao presidente do CRBE, se não teria sido também ele um dos redatores das exigências de retratação e penitência, dignas da ditadura e da Inquisição de que trata meu artigo. Como pode ser defensor da liberdade de expressão se não admite o debate de conceitos e projetos diferentes dentro do CRBE e se ajuda a redigir abaixo-assinado pedindo a expulsão de um colega suplente no CRBE ?
Link original: http://www.diretodaredacao.com/noticia/flavio-carvalho-mente

18/05/2011 - Eu tinha decidido no domingo, colocar uma pá de cal nessa história de CRBE, mas sou praticamente obrigado a voltar ao assunto.
Recebi pelo Facebook um vídeo, Youtube, da Vejatv, no qual minha (ex?) colega do CRBE, Esther Sanchez, afirma não ter havido expulsão e explica com a maior segurança ter havido uma espécie de advertência para que eu mude meu comportamento. Coisa nada grave, que terei três meses para responder e ficando bonzinho tudo entra de novo nos eixos.
Esther me parece sincera, tanto que pede ao pastor Silair para corrigir sua informação ao Gazetanews de ter havido um suplente pela Europa desligado do CRBE, ou seja, eu mesmo.
Porém, no documento que recebi do Itamaraty, com as assinaturas dos conselheiros que pediram meu « desligamento », está no quinto lugar, a assinatura bem visível de Esther Sanchez-Naek. Existem, portanto, três hipóteses – a primeira é a de que Esther não assinou, alguém assinou por ela; a segunda, é que ela assinou sem ler o que assinava; e a terceira, é a de ter sido « enrolada » por outro conlheiro, pensando estar assinando advertência mas assinando na verdade expulsão, ou numa linguagem mais amena, desligamento.
Para evitar que o vídeo da Esther Sanchez crie confusão entre os emigrantes nos EUA, sou praticamente obrigado a voltar ao assunto para explicar que houve sim um pedido de meu afastamento ou expulsão ou expurgo pelos meus « colegas » do CRBE. Ou seja, a iniciativa foi tomada por eles.
Mesmo porque acabo de ver no Facebook, outra informação de que não fui expulso, de Monica Pereira, conselheira pela Europa. Não acho que os conselheiros do CRBE sejam pessoas que não saibam o que assinam, mas são pessoas que precisam aprender a assumir o que assinam e não ficar agora com medo da confusão armada.
Como disse o companheiro emigrante Romão, da rádio Mamaterra, da comunidade brasileira em Berlim - « vocês se lembram se na ditadura militar se cassava também suplente ? » Sim, como é que um suplente pode causar tanto reboliço, são 16 contra 1, e ainda precisa expulsar ?
Voltando ao pedido de expulsão, como vivemos numa democracia tenho um prazo de dez dias para responder, se quiser responder, e se instaurou um processo administrativo que, dentro de um prazo máximo de três meses, dará seu parecer. Disseram para Esther e ela assim diz no vídeo que tenho três meses para mudar de comportamento, não é bem isso.
Agora, como vivemos numa democracia tenho um prazo de dez dias para responder, se quiser responder, e se instaurou um processo administrativo que, dentro de um prazo máximo de três meses, dará seu parecer. Disseram para Esther e ela assim diz no vídeo que tenho três meses para mudar de comportamento, não é bem isso.
Mas o que diz o artigo do regulamento do CRBE no qual se basearam meus inquisidores, capaz de justificar minha expulsão por eles tão almejada ? Transcrevo - « os conselheiros do CRBE deverão portar-se, no desempenho de suas mandatos e em suas vidas públicas, de maneira condizente com a importância e representatividade do cargo que ocupam, com especial atenção à moralidade e à impessoalidade de suas funções ».
E do que sou acusado ? Transcrevo - « ...desde sua posse, tem divulgado informações negativas acerca da utilidade e eficiência do CRBE, redigindo artigos e comentários, solicitando a dissolução do Conselho e lançado uma campanha através de redes sociais, mailing imprensa virtual contra o Conselho e seus membros ».
Vocês viram alguma ligação direta entre o regulamento e a acusação? Não há, é preciso procurar com lupa.
Qual é, então, o problema? Na verdade, sou considerado um danado de um subversivo que vive infernizando a vida deles com artigos na imprensa E tenho a impressão de estar vivendo nos anos 70, quando era forte a repressão da ditadura militar e o próprio Estadão era obrigado a colocar versos de Camões em lugar de notícias e comentários.
Meus caros colegas do CRBE têm o comportamento de censores e inquisidores. Não suportam críticas e na falta de poderem queimar na fogueira meu colega jornalista da Época, autor do artigo Um Conselho Desaconselhável, pegaram o conselheiro-suplente-jornalista mais perto para servir de bode expiatório.
E vejam bem, não fui eu quem escreveu sobre cartões de visita, sobre viagens em classe executiva, sobre guerra de titulares-suplentes. Mas sou responsabilizado pelo « desgaste provocado por todos os incidentes ocorridos desde dezembro de 2010 ». Que desgaste, que incidentes ?
Ao que eu saiba, e a Época, noticiou, o CRBE passou esses meses, antes de se reunir em Brasília, sem incidente por simplesmente não ter feito nada. Dizem que o relatório dos EUA tinha dez linhas. Um conselheiro colocou entre suas atividades o fato de ter assinado o livro de condolências pela morte do nosso vice-presidente e coisas parecidas. Um conselheiro foi vaiado no encontro do Focus Brasil. Uma conselheira, não nos EUA, deu uma festa de arromba na qual a entrada era o passaporte para se poder votar. Um candidato a conselheiro, em Barcelona, foi vítima de uma sórdida campanha de difamação. Outro é funcionário do Consulado. Isso sem se falar no meu artigo, publicado aqui no Direto, sobre « padres, pastores e despachantes ». Eu não sou o culpado por isso, e todas essas coisas se enquadram no artigo 33 do CRBE e constituem, isso sim, infrações.
Vejam bem, quando há desfuncionamento e falhas em alguma coisa, não é o jornalista que publica a crítica o culpado. E no caso do CRBE, minhas críticas não tratam de pessoas e sim de conceitos. E, infelizmente, não sou um jornalista lido por tanta gente, que possa afetar o funcionamento do CRBE.
E para terminar, quero tornar pública uma grande mágoa que me foi profunda, ao ter em mãos o documento pedindo minha expulsão ou afastamento do CRBE, porque vi ali no quarto lugar a assinatura de alguém por cuja eleição lutei e, tive aquele reflexo, de me dizer, na minha decepção e tristeza, « até tu Brutus? ».

15 Maio 2001 - Berna (Suiça), por Rui Martins - Fui surpreendido neste sábado por um telefonema dos EUA me avisando terem fundamento minhas suspeitas sobre um possível expurgo no CRBE. O jornal Gazetanews publicava uma reportagem sobre o encontro de emigrantes em Brasília, onde o pastor Silair de Almeida confirmava ter sido desligado um suplente do CRBE.
Ou seja, em lugar do Conselho de Representantes dos emigrantes tentar corrigir as falhas e deficiências apontadas na revista Época, decidiu procurar um bode expiatório. É lamentável, porque essa decisão demonstra que, além de ineficiente, esse CRBE é constituído de pessoas incapazes de diálogo, e lembra uma época já passada, a da ditadura militar, onde os subversivos que discordavam eram cassados, sem direito de defesa.
Talvez esta seja minha última coluna tratando da questão emigrante. Não me sinto, realmente, diante dessa covardia cometida com a complacência do Itamaraty, em condições de continuar nessa luta, na qual sou extremamente minoritário, incapaz de impedir a transformação do CRBE numa feira de vaidades e de vampirização do mercado emigrante.
Vou me limitar a reproduzir alguns comentários recebidos, mostrando haver muitos emigrantes conscientes do desvio da tentativa de se criar uma verdadeira política de emigração.
Nelson Serathiuk, de Lausanne, na Suíça, publicou no Facebook, o seguinte texto:
Os "representantes do CRBE" não foram eleitos democráticamente como pretendem o Itamaraty e os próprios eleitos. Vê-se que trabalham com garra e "defendem os interesses das comunidades brasileiras emigrantes" tomando decisões como a de expurgar um membro eleito suplente !!! Este membro foi ouvido pelo CRBE e pelas entidades de tutela ? Parece que não !
Para mim é mais um motivo para anular eleições fraudulentas (sem colégio eleitoral recenseado) onde grupos de interesses, comerciais, profissionais, religiosos, politicos, proselitistas, acaparam a direção do CRBE. Isto tudo com a conivência das "autoridades tutelares" que "organizaram" eleições fraudulentas.
As comunidades brasileiras de emigrantes não foram sequer informadas sobre as eleições do CRBE e não tinham conhecimento do Decreto e da Portaria. Nada foi filtrado pelos Consulados e Embaixadas do Brasil junto às pessoas inscritas nestes orgãos. Nem sequer um cartaz ou flyer foi distribuido por estes orgãos conhecedores dos brasileiros residentes no estrangeiro, organizados em associações brasileiras e lusófonas, corais, clubes de capoeira, clubes de dança, grupos musicais, creches, pequenos comércios onde se compram produtos brasileiros, sem falar nas estruturas próprias dos países de residencia que trabalham em favor dos emigrantes....nunca souberam da existência desse processo de representatividade.
A participação nas eleições do CRBE é mais do que ridicula !! Se as "autoridades tutelares" e os "representantes eleitos" não anularem estas eleições e prepararem uma verdadeira eleição democrática e participativa com recenseamento (matricula consular) de constituição do Corpo Eleitoral, o acaparamento do CRBE por certos grupos será considerado a primeira e mais importante MARACUTAIA de uns poucos que deverão responder de seus atos.
Seguem-se outros comentários -
Claudia Santana Tamsky - Presidente Núcleo do PT, Boston.USA escreveu:
Venho acompanhando bem de perto tudo que vem acontecendo com este CRBE. Em alguns momentos, sendo inclusive entrevistada sobre esses escândalos e a pouca funcionalidade deste conselho. No entanto, o que me chama a atenção, mais especificamente ,é a forma vertical e autoritária com que os diplomatas tomam suas decisões. E é claro, adicionado a subserviência dos conselheiros que se submetem aos mandos da Sub Secretaria das Comunidades Brasileiras no Exterior. Agora, cabe a nós, brasileiros no exterior, reivindicarmos uma autonomia que nos dê a liberdade de administrarmos as mazelas que afligem nossa comunidade imigrante. E para isso, uma secretaria de Estado viria a ser a resposta para esses problemas de autruísmo no qual se encontra o CRBE.
J. Magalhães escreveu:
Caro Rui, apesar de nao ser um emigrante, tenho acompanhado pelas páginas do DR sua luta em prol de um conselho independente e que represente verdadeiramente a comunidade brasileira no exterior. Confesso que me emociono com seu espírito de luta, sua garra e determinação em busca do seu sonho. Espero que o Itamaraty um dia reconheça a importância da sua luta e desça do pedestal para ouvir a voz de quem conhece verdadeiramente as angustias do emigrante brasileiro. O problema, Rui, é que diplomatas são passageiros, não esquentam lugar. Estão ali para cumprir suas funções consulares e não estão nem aí para os problemas da comunidade brasileira. Estão apenas cumprindo tempo. O que esperar deles?
E, por último, um comentário de José Commessu, do blog Pequenas Cousas, sobre o Plano de Ação do CRBE -
“Grande parte do que foi discutido lá, não tem nenhum interesse prum simples dekassegui que trabalha no Japão. Dá a impressão de que esses conselheiros serão substitutos de diplomatas, que fingem que trabalham de graça apenas por prestígio no lugar de quem deveria trabalhar "
Rui Martins, conselheiro-suplente pela Europa, do CRBE, representante dos movimentos Brasileirinhos Apátridas e Estado do Emigrante.
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12 Maio 2001 - Berna (Suiça), por Rui Martins. Desculpem-me os leitores, mas desta vez vou lhes propor um relato de atividades. Pode parecer coisa maçante, mas para os emigrantes brasileiros nos EUA, cerca de 1,5 milhão, é uma espécie de prestação de contas, e igualmente para os que vivem na Europa, comunidade que me elegeu.
Membro suplente do Conselho de emigrantes, chamado de CRBE, tenho sido uma voz discordante por fazer oposição e por desejar uma outra estrutura política de emigração, que reconheça a independência dos emigrantes com a consequente separação do Itamaraty, baseado na frase de nossa campanha "emigrante é emigrante, diplomata é diplomata", não se entende os emigrantes sujeitos à tutela de diplomatas.
Jornalista, não tirando nenhum provento do mercado emigrante, comecei a me interessar pela questão emigrante no longo episódio dos brasileirinhos apátridas, decorrente da perda da nacionalidade brasileira nata pelos filhos de emigrantes nascidos no Exterior. Foi uma luta benévola, que reuniu milhares de emigrantes em pelo menos dez países e que, 13 anos depois, obteve a Emenda Constitucional 54/07, pela qual todos os filhos de emigrantes nascem brasileiros natos.
Agora estamos empenhados na autodeterminação dos emigrantes, para que os emigrantes brasileiros, cerca de 3,5 milhões em todo mundo, não sejam esquecidos e nem representados por um pequeno grupo, eleito por apenas 18 mil votos, coisa de 0,5%, que vivem do mercado emigrante. Os emigrantes devem ter direito a uma Secretaria de Estado dos Emgirantes, a parlamentares emigrantes, havendo lugar para um amplo conselho de emigrantes mais representativo.
Para esta coluna, separei alguns trechos do meu relatório de atividades enviado hoje ao Itamaraty, onde, não se sabe bem porque, se coordena e centraliza a direção do movimento emigrante.
Tendo sido eleito por emigrantes da região Europa com um programa bem claro e específico – independência do movimento emigrante para que funcione sem a tutela do Itamaraty, pela criação de uma Secretaria de Estado dos Emigrantes e pela criação de circunscrições eleitorais no Exterior para a eleição de parlamentares emigrantes, tenho cumprido essa plataforma, seja em reuniões com emigrantes, artigos publicados na imprensa e entrevistas.
Como deixei claro numa declaração, ao fim da III Conferência Brasileiros no Mundo, o atual CRBE é apenas uma etapa, mas precisa ser transitória, porque sem independência própria e sob a batuta do Itamaraty, não cumpre os ideais dos emigrantes de ter um órgão institucional emigrante independente embora interativo com todos os Ministérios.
Eleito, sem qualquer sombra de dúvida quanto à validade dos votos recebidos, sem fraude e sem voto de cabresto, tenho exercido essa legitimidade que me deram meus eleitores, colaborando com o CRBE mas discutindo sua estrutura,sua validade e sua real eficiência.
Exerço, portanto, dentro do CRBE um papel de franca, clara e transparente oposição, como me permite nossa democracia. Não considero o CRBE, eleito por apenas 18 mil votos, como representativo da emigração brasileira mas apenas de grupos e segmentos instalados junto ao grande mercado emigrante de cerca de 3,5 milhões de pessoas. Por isso, nossa luta, em nome dos apoiadores e participantes dos movimentos de cidadania Estado do Emigrante e Brasileirinhos Apátridas, por uma Secretaria de Estado, ligada diretamente à Presidência da República, capaz de representar e responder aos anseios da grande maioria dos emigrantes, cidadãos brasileiros do exterior, na sua quase totalidade desligados dos grupos e associações, extremamente minoritários, que hoje compõem o CRBE.
É portanto, dentro desse espírito que tenho exercido as atividades de conselheiro-suplente do CRBE, movido em minhas críticas por questões conceituais, ideológicas, pela autodeterminação dos emigrantes, e não por questões pessoais.
Assim, divido minhas atividades em reuniões e contatos com emigrantes, consulados e textos escritos destinados aos emigrantes e opinião pública. Nos meus contatos com os meus colegas da imprensa, já que sou um emigrante jornalista, não me apresento e nem quero ser o comunicador do CRBE, mas o militante por um projeto de independência para os emigrantes. Defendo esse direito de me dirigir aos emigrantes, qualquer tentativa de me obstar desse direito seria recurso à censura e uma prova de autoritarismo sem lugar na sociedade brasileira pós-ditadura militar.
Divirjo das intenções de se criar compartimentos estanques dentro do CRBE, para que suplentes não acompanhem as ações dos titulares, pois isso transformaria rapidamente o CRBE numa elite intocável, que se auto isolaria e se autoprivilegiaria nos contatos com o MRE e o governo, o que não corresponde, de forma alguma, ao projeto de um governo que realça as bases da sociedade e incentiva a participação social.
Para quem quiser ler minhas atividades deve clicar aqui (e aqui você pode colocar tudo que vem embaixo, num arquivo)
Segue o relato de minhas atividades:
- Reunião com suplentes e alguns titulares, dia 30 de novembro, no Rio de Janeiro, para se discutir qual a exata situação dos suplentes dentro das atividades do CRBE;
- Participação de encontros pré-eleitorais com membros eleitos do CRBE, dia 1.12.2010, para constituição de uma chapa para a presidência e secretaria do CRBE. Esses encontros favoreceram a formação da chapa vitoriosa – Carlos Shinoda, eleito pelo Japão, e José Paulo Ribeiro, eleito pelo Suriname, pessoas que nos pareceram mais representativas da comunidade emigrante;
- Ata da eleição do presidente e vice-presidente do CRBE e primeiras decisões tomadas, inclusive participações nas mesas. Documento anexo -em pdf.
- Defesa diante da Mesa B, de Políticas, da reincorporação na Ata Codificada do pleiteado, num abaixo-assinado majoritário obtido na I Conferência Brasileiros no Mundo, em favor de uma Comissão de Transição pela criação de um órgão institucional emigrante laico. O texto tinha inexplicavelmente desaparecido, situação que não foi explicada e que parece ter sido intencional;
- Entrega à mesma Mesa B de outras propostas, principalmente a que pleiteava a transformação em conselheiros-titulares dos conselheiros suplentes em países sem qualquer representação. Essa proposta não foi levada em consideração, ao que parece, pelos responsáveis da Mesa B, pois não constou da proposta final de Ata;
- Tentativa frustrada de obter aprovação para uma proposta de criação de um grupo de trabalho destinado a estudar a implementação de uma Comissão de Transição para uma Secretaria de Estado dos Emigrantes;
- Encontro ainda no Palácio do Itamaraty com a Consul de Zurique e os participantes vindos da Suíça para a III Conferência Brasileiros no Mundo, tendo em vista a realização de um encontro de divulgação e avaliação, em Zurique, com os emigrantes e associações de emigrantes na Suíça. Impossibilitado de participar desse encontro, o embaixador consul em Genebra confirmou, momentos antes, estar de acordo para um encontro idêntico em Genebra, com a participação do conselheiro-suplente e três outros participantes da conferência;
- Participação ativa na reunião de 5 de fevereiro, em Zurique, com associações e emigrantes, do encontro de divulgação e avaliação da III Conferência. Havia 70 pessoas presentes e transmitimos aos presentes as saudações do presidente do CRBE, seguidas depois de nossa avaliação e críticas à estrutura do CRBE, considerado como um passo inicial dos emigrantes a uma Secretaria de Estado independente do Itamaraty. Dessa reunião participaram os cônsules de Zurique e de Genebra, o conselheiro-titular Carlos Mellinguer e mais três participantes da III Conferência – o advogado Pedra da Silva Neves, Ocirema Kukleta e Lúcia Amélia Brullhardt, da associação Prevenção Madalena´s. Minha participação foi gravada em vídeo e colocada no Facebook;
- Participação em 10 de fevereiro, em Berlim, Alemanha, de um encontro do Conselho de Cidadãos local, vice-consul e emigrantes de uma reunião de informação e avaliação sobre a III Conferência, com a presença da convidada Elisabeth Reuter. A reunião tinha 42 pessoas, e nela discutimos também a questão do nosso projeto por uma Secretaria de Estado dos Emigrantes e Conselhos de cidadania;
- Participação ativa na reunião do 12 de março, em Genebra, com associações de emigrantes e emigrantes do encontro de divulgação e avaliação da III Conferência. Nesse encontro havia 150 pessoas, participaram o embaixador consul de Genebra, três conselheiros-titulares Mônica Pereira, Carlos Mellinger, Flávio Carvalho e os três participantes da Suíça, já mencionados. Desse encontro, há um vídeo de minha participação colocado no YouTube sob o título Rui Martins em Genebra;
- Participação como convidado do encontro de 25 de março da associação Prevenção Madalena´s, em Bienne, na Suíça, onde se preparava o Consulado Itinerante. Fizemos uma avaliação geral da III Conferência e CRBE junto com nossas críticas e projeto de uma Secretaria de Estado dos Emigrantes, separada do Itamaraty;
- Participação dia 10 de maio, em Zurique, da reunião preparatória para a criação do Conselho de Cidadania. Desse encontro participaram 12 pessoas, representantes setoriais de atividades emigrantes, junto com a consul Vitória Cleaver, discutindo-se como será formado o Conselho de Cidadania, como serão escolhidos seus membros e como funcionará. Deverá ser marcado um novo encontro para decisões finais, já que o encontro foi marcado por um clima positivo de sugestões e consensos.
- Artigos publicados na imprensa (como já afirmado, esses artigos não são comunicados do CRBE mas minhas observações críticas e sob minha responsabilidade)-
Publicados no site Direto da Redação, de Miami, e no jornal e Portal do Correio do Brasil, editado no Rio de Janeiro (Muitos desses artigos foram reproduzidos pela mídia alternativa brasileira e pela mídia emigrante de diversas regiões)
Declaração emigrante pós-votação - Os caminhos do movimento emigrante brasileiro, depois da votação que vai escolher um Conselho de Representantes sem nenhuma representatividade junto ao governo. Rui Martins - Berna | Publicado em 10/11/2010;
Padres, pastores, despachantes - Colunista não entende como o governo Lula, tão social dentro do país, não previu que esse Conselho de Emigrantes seria formado por neoliberais e religiosos.Rui Martins - Berna | Publicado em 13/11/2010;
Obrigado Itamaraty, mas falta autonomia - A concepção e direção da política brasileira da emigração deve ser confiada pelo governo aos próprios emigrantes e não aos diplomatas do Itamaraty. Rui Martins - Berna | Publicado em 01/12/2010.
(Este artigo foi distribuídos aos participantes da III Conferência, no Palácio do Itamaraty);
Lula e os emigrantes no Itamaraty - Ao testemunhar o encontro do presidente com os representantes dos emigrantes brasileiros, colunista conclui que Lula é o melhor presidente que o Brasil já teve. Rui Martins - Berna | Publicado em 05/12/2010
Para a Presidenta Dilma, urgente - Dramas que acontecem com emigrantes brasileiros constituem um desrespeito aos direitos humanos, mas não chocam porque a grande imprensa não se interessa por eles. Rui Martins - Berna | Publicado em15/12/2010
Órgão emigrante entra em crise - Decisão vertical, falta de consultas e de informação, numa simples decisão de substituiçãode um titular, revelaram um caso de incompatibilidade no conselho de emigrantes. Rui Martins - Berna | Publicado em10/04/2011
A revista Época e os emigrantes - Enfim, uma revista da grande imprensa brasileira dedicou foto e texto aos emigrantes, os eternos ignorados, mas infelizmente mostrou um quadro desanimador. RuiMartins - Berna | Publicado em 24/04/2011
Emigrantes, um erro para Dilma corrigir - Desta segunda até sexta-feira, estarão reunidos, em Brasília, representantes de emigrantes brasileiros sob a tutela de diplomatas do Itamaraty. RuiMartins - Berna | Publicado em 01/05/2011
Por que o CRBE não funciona ? - Alguns emigrantes, entre eles candidatos não eleitos, decidiram sentar o pau no CRBE, mas a paulada deve ser no Itamaraty e no Decreto que o criou. Rui Martins - Berna | Publicado em 04/05/2011
ENTREVISTA ÉPOCA
Sem dúvida, a reportagem da revista Época sobre o CRBE teve as consequências de um choque nos membros do CRBE. Mas, em lugar de provocar uma reação autoretrospectiva e de autocrítica, desencadeou – ao que parece –uma caça aos entrevistados.
É provável que, a partir de agora, nenhum membro do CRBE seja autorizado a dar entrevistas ou a falar com jornalistas, sob pena de expulsão, como nos regimes ditatoriais, porque a verdade tem esse defeito – de um lado ela revela falhas, mas do outro provoca reações repressivas. Se essa minha impressão se confirmar, com a criação de um chefe-político de informação no CRBE, podem ter certeza de que sua existência será curta, porque com a presente Primavera Árabe, se confirma que as pessoas não aceitam mais controles e opressões, sejam quais forem.
Quero deixar neste resumo de minhas atividades que fui também um dos entrevistados pelo jornalista da Época. Soube pelo entrevistador que a preocupação principal não tinha sido, até chegar minha vez, a da discussão das questões importantes, como autonomia, Secretaria de Estado, tutela pelo Itamaraty, mas simples questões subsidiárias como cartões de visita, viagens em classe executiva, desentendimento de funções entre suplentes e titulares.
Vi, na publicação, que a questão da Secretaria de Estado dos Emigrantes mereceu duas linhas,prejudicadas com a informação de já haver 36 ministérios. No mais, prevaleceram as questões secundárias.
Nos meus comentários sobre o reportagem da Época, considerei importante o fato da grande imprensa ter se preocupado com os emigrantes. Coisa rara. Consegui mesmo outra coisa rara, que meus comentários sobre emigrantes e Época fossem também publicados no prestigioso site Observatório da Imprensa.
Meus comentários se mantiveram na constatação da realidade fotografada pela revista Época, porque sendo de formação jornalítica não me impressionam frases feitas, nem conversas moles, nem mentiras e hipocrisias disfarçadas em frases de efeito.
Mas duas frases faço questão de destacar neste relatório:
"Por isso, a reportagem da revista Época pode chocar, mas, na verdade,destituídos de qualquer possibilidade de decisões só resta mesmo aos membros do CRBE discutir cartões de visita, se viajam em classe econômica ou executiva e se os suplentes se equivalem ou não aos titulares.
Ainda bem que o jornalista se satisfez com esse quadro desanimador, porque, no caso de cavar mais fundo, teria levantado a subtração da proposta da Comissão de Transição, um caso claro de incompatilidade funcional pois um dos membros do CRBE trabalha para um Consulado, casos de fraudes eleitorais e de votos de cabresto em diversas regiões, favoritismo e protecionismo em favor de candidato e uma campanha orquestrada para impugnar a candidatura e eleição de um candidato."
Assumo e sempre assumi o que fiz e faço. Tenho até como lema, uma frase do escritor italiano Salvatore Quasímodo, premio Nobel de Literatura, no qual se diz – mais vale um dia como leão do que cem anos como carneiro.
Assumo minha entrevista,voltada para as questões importantes do CRBE, sem criticar quem se fixou nas críticas subsidiárias. Mas quero deixar bem claro – não estou a fim de assumir o papel de Cristo nessa história, mesmo porque, como havia declarado em Genebra, nunca quis entrar nessa história de suplente e titular, pois nisso existe uma diferença funcional. Propusemos isso sim, na Mesa B e em Zurique, a titularização dos suplentes em países sem titular, para compensar países como a Inglaterra, Bélgica e Espanha com mais de um eleito. Mas isso nada tem a ver com equiparação de suplente a titular.
Mas pelo visto, e como costuma ocorrer, os demais entrevistados desapareceram temerosos de represálias. E talvez os mais críticos e mais “ousados” nessas questões secundárias. Quanto a mim, costumo assinar embaixo do que escrevo e assim o fiz.
Rui Martins, conselheiro-suplente pela Europa, representante eleito dos movimentos de cidadania Estado do Emigrante e Brasileirinhos Apátridas.
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